O APRENDIZ DE LAVA-PÉS. II


A crise é antiga. O gênero adâmico não aprecia viver ao rés do chão. Ele foi feito do pó da terra. Vive sujo, mas detesta aspirar a poeira dos pés alheios, enquanto aspira ao trono da glória, como se fosse um deusinho soberano. O ar de importância faz parte do DNA da raça caída, que adora construir jiraus e palanques para se apresentar saliente.
A síndrome do púlpito, o desejo da plataforma, o gosto pelos palcos e a ânsia por serem vistos, a qualquer custo, como artistas Vips ou gente importante são procedimentos do complexo de inferioridade que se alastrou nos anões que sonham sendo gigantes.
Os discípulos de Jesus, Deus encolhido num homem, conviviam com o conflito permanente de altar. Eles queriam ser ou saber quem era o maior. Por três vezes a crise se instalou no colégio apostólico, gerando disputa, olho gordo e dor de cotovelo entre eles.
Na primeira tensão, Jesus pegou uma criancinha e colocou no meio deles, dizendo: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Mateus 18:3. O modelo de grandeza aqui foi um bebê, todavia, eles estavam embebedados pelos conceitos dos governos terrenos. Para o mundo inchado, grande é quem senta em tronos e tem muitos servos a seu serviço.
A segunda articulação visava à posição de nobreza dos filhos de Zebedeu, ambos, “Zé ninguém”. Pretendiam assumir dois ministérios como Plenipotenciários. Jesus mostrou, neste caso, que grande, no reino de Deus não é quem tem muitos servos, mas quem serve a muitos, com um espírito de humildade. Eles, porém, jaziam sem entender nada.
Vem a terceira convulsão de altivez e Jesus toma uma bacia com água e uma toalha, a fim de demonstrar, na prática, o que é a grandeza no âmbito da Trindade.
Se quisermos ser reconhecidos como discípulos de Jesus, teremos que aprender esta lição elementar. Água, bacia e toalha. Retire a túnica da pomba e aprenda a ficar de cócoras, com a popa quase no chão, olhando, não para a cabeça das pessoas, mas para os seus pés sujos. Aqui reside o padrão da realeza diante do trono celestial.
O Deus que lavou os pés dos perturbados pelo poder, que ansiavam ser graúdos neste mundo, é o Criador do Universo, o Senhor da história, por isso mesmo, não há opção para os seus discípulos. A grandeza nos céus é às avessas ou de cabeça para baixo.
Como aprendizes, nós fomos escolhidos para a missão de lavar os pés empoeirados de todos, inclusive daqueles que têm os seus pés rachados, imundos, mal cheirosos, defeituosos, sangrentos, embora, sempre amados, muito amados, os mais amados por Aquele que teve os seus pés transpassados por um amor jamais superado.
Se você e eu somos discípulos do Deus acocorado aos pés dos perversos pecadores, então dispamos dessa roupagem de Sua Majestade terrena e, revistamo-nos dos trajes simples de Sua Alteza, o Mendigo, cheio de graça, humildade e mansidão.
Ó Senhor da submissão, tu disseste: eu nada fiz aqui terra que não tivesse visto meu Pai fazer. (Sem dúvida, lá no céu). Então, a idéia de lavar os pés dos teus discípulos arrogantes, naquele dia, foi do teu Pai, arraigado de amor eterno. Agora, em teu nome, como aprendizes do lava-pés, suplicamos que o teu Aba nos dê da tua modéstia, a ponto de lavarmos os pés dos irmãos, dos amigos e também dos nossos inimigos, com a mesma postura e o mesmo desprendimento que o Senhor demonstrou. Se não for por teu milagre, ninguém conseguirá esta façanha como um filho de Aba.
No teu nome, que é sobre todo nome. Amém.
Do aprendiz de lava-pés,
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Glenio Paranaguá.

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