Jacques Ellul - Anarquia e Cristianismo

Quando era jovem, tinha um horror por movimentos fascistas. Demonstrei contra as “Cruzes em chamas”[1] em 10 de fevereiro de 1934. Intelectualmente, eu era muito influenciado por Marx. Eu não nego que isto foi devido mais a considerações familiares do que intelectuais. Meu pai perdeu o emprego depois da crise de 1929, e tivemos que aprender como era estar desempregado em 1930.
Também houveram circunstâncias individuais. Como estudante, entrei em conflito com a polícia (em greves, por exemplo), e comecei a abominar não só o sistema capitalista como também o Estado. A descrição nietzschiana do Estado como o monstro mais indiferente de todos os monstros indiferentes me pareceu ser básica.
Embora eu gostasse das análises de Marx, incluindo sua visão de uma sociedade na qual o Estado seria extinguido, foram parcos os meus contatos com comunistas. Eles me enxergavam como um pequeno-burguês intelectual, pois eu não demonstrava total respeito pelas ordens de Moscou, e os considerava insignificantes, pois não demonstravam ter um verdadeiro conhecimento do pensamento de Marx.
Eles leram o manifesto de 1848, e foi tudo. Eu rompi com eles totalmente depois dos ensaios de Moscou, não favoráveis a Trotsky, pelos marinheiros de Cronstadt[2] e o governo Makhno me pareceu ser verdadeiramente revolucionário, e não pude perdoar seu esmagamento, assim como não pude acreditar que os grandes companheiros de Lênin eram traidores, anti-revolucionários, etc.
Para mim, a condenação dos marinheiros foi simplesmente outra manifestação do monstro indiferente. Também vi que houve, sem grandes dificuldades, uma transição da ditadura do proletariado à uma ditadura sobre o proletariado. Posso garantir que ninguém que estivesse disposto poderia perceber em 1935 e 1936, o que seria denunciado vinte anos depois. Ademais, nada havia sobrado dos dois princípios básicos do internacionalismo e do pacifismo, que deveria ter resultado em anti-nacionalismo.
Minha admiração por Marx também foi atingida pelo seguinte fato. Ao mesmo tempo em que eu lia Marx, também lia Proudhon, que não me impressionava tanto, mas que eu gostava muito, então me escandalizei com a atitude de Marx em relação a ele em sua disputa[3]. Por fim, o que me levou a detestar comunistas foi a sua postura durante a Guerra Civil Espanhola, e o terrível assassinato dos anarquistas de Barcelona.
Muitas coisas, incluindo contatos naquele tempo com anarquistas espanhóis, me atraíram para o anarquismo. Mas havia um obstáculo insuperável – eu era cristão. Eu vim de encontro a este obstáculo toda minha vida. Por exemplo, em 1964, fui atraído por um movimento muito próximo do anarquismo, o situacionismo.
Tive muitos contatos amigáveis com Guy Debord, e um dia eu perguntei abruptamente se eu poderia me juntar ao seu movimento e trabalhar com ele. Guy respondeu que poderia perguntar aos seus camaradas. Sua resposta foi franca. Como eu era um cristão, não poderia pertencer ao seu movimento.
De minha parte, não poderia renunciar minha fé. Reconciliar as duas coisas não era um problema fácil. Era possível conceber ser um cristão e um socialista. Houve um socialismo cristão por muitos anos, e aproximadamente em 1940 um socialismo moderado clamou seus ensinamentos morais da Bíblia. Mas parecia difícil ir além disso. Dos dois lados a incompatibilidade parecia ser absoluta.
Embarquei então em uma longa jornada espiritual e intelectual, não para reconciliar as duas posições, mas para ver se eu estava esquizofrênico. O estranho resultado foi que quanto mais eu estudava e mais eu entendia seriamente a mensagem bíblica em sua totalidade (e não simplesmente o “evangelho gentil” de Jesus), mais eu via o quanto impossível era conceder simples obediência ao Estado, e como havia na Bíblia uma orientação para um certo anarquismo.
Naturalmente, era uma visão pessoal. Nesse ponto, reparti a companhia com o teólogo que havia me formado, Karl Barth, que continuava a defender a validade da autoridade política. Mas durante os últimos anos, passei por outros estudos apontando na mesma direção, especialmente nos EUA: Murray Bookchin, que claramente admite que a origem do cristianismo estava no pensamento anarquista, e Vernand Eller.
Não devo esquecer o pioneiro, Henri Barbusse, que não era um anarquista de fato, mas cujo trabalho sobre Jesus mostrava claramente que Jesus não era um simples socialista, mas um anarquista – e quero salientar aqui que considero o anarquismo como a forma mais completa e mais séria de socialismo. Devagar então, e por conta própria, não emocionalmente, mas intelectualmente, cheguei à minha presente posição.
Preciso esclarecer mais um ponto antes de começar meu assunto. Qual é o meu propósito ao escrever estas páginas? Penso que isso é importante para evitar qualquer equívoco. Primeiro, isso deve ficar claro, não tenho nenhum objetivo proselitista.
Não estou tentando converter anarquistas à fé cristã. Isto não é simplesmente uma questão de honestidade. Repousa em bases bíblicas. Por séculos as igrejas têm pregado que devemos escolher entre danação e conversão.
Com bons pregadores e missionários zelosos, conversões têm acontecido a todo custo para salvar almas. Ao meu ver, entretanto, isso é um erro. Para ter certeza, há versículos que nos dizem que ao crermos, seremos salvos. Mas o ponto fundamental aqui é esquecido, de que não devemos pegar versículos fora de seu contexto (a história ou o argumento) ao qual pertencem.
Minha crença própria é de que a Bíblia proclama uma salvação universal na qual Deus em graça garante a todos nós. Mas o que dizer de conversão e de fé? Isso é outra questão. Não tem muito a ver com salvação, a despeito do senso comum. Isso é uma tomada de responsabilidade. Depois da conversão, nos comprometemos com um certo padrão de vida e a um certo dever que Deus requer de nós. Assim, aderir a fé cristã não é de forma alguma um privilégio em relação a outras pessoas, mas uma responsabilidade a mais, um novo trabalho. Não estamos, então, a empenhar-nos no proselitismo.
Por outro lado, não estou de maneira alguma tentando dizer aos cristãos que eles devem tornar-se anarquistas. Meu ponto é simplesmente esse. Entre as opções políticas, se eles tomarem um caminho político, não deveriam excluir o anarquismo de primeira, ao meu ver, ele parece ser a posição mais próxima do pensamento bíblico.
Naturalmente, sei que tenho poucas chances de ser ouvido, pois não é fácil ignorar preconceitos seculares inveterados. Devo também dizer que meu objetivo não é que os cristãos devam tomar essa posição como um dever, pois novamente, apesar da visão de muitos séculos, a fé cristã não nos traz um mundo de deveres e obrigações, mas sim uma vida de liberdade. Não sou eu quem digo isso, mas Paulo em muitos lugares (por exemplo: 1 Coríntios).[4]
Terceiro, não estou tentando reconciliar as duas formas de pensamento e de ação, duas atitudes de vida, as quais eu mantenho. Agora que o cristianismo não é mais dominante na sociedade, é uma mania estúpida da parte dos cristãos agarrar-se a esta ou aquela ideologia e abandonar aquilo que os embaraça no cristianismo. Por isso, muitos cristãos tornaram-se stalinistas após 1945.
Eles enfatizaram qualquer coisa que o cristianismo dissesse sobre a pobreza, justiça social, sobre tentativas de mudar a sociedade e negligenciaram o que achavam desconfortável – a proclamação da soberania de Deus e a salvação em Jesus Cristo. Nos anos 1970, vimos a mesma tendência nas chamadas teologias da libertação.
De uma forma extrema, foi encontrada a possibilidade de associação com movimentos revolucionários sul-americanos. Qualquer pessoa pobre era supostamente idêntica a Jesus Cristo. Assim, não há problema. Ao evento de dois mil anos atrás, pouca atenção é dada. Essas orientações foram largamente precedidas pelo protestantismo racional do começo do século XX, com suas simples suposições que a ciência sempre está certa, e tem a razão, e que para preservar a Bíblia e o Evangelho, devemos abandonar tudo o que for contrário à ciência e à razão, por exemplo, a possibilidade de Deus ter encarnado em um homem, juntamente com os milagres, a ressurreição, etc.
Finalmente, no nosso tempo, encontramos novamente a mesma atitude conciliatória de abandono de uma parte do cristianismo, dessa vez, em favor do Islã. Cristãos querem apaixonadamente se entender com muçulmanos, e em conversações (das quais eu participei), insistem fortemente em dois pontos de acordo, por exemplo, que as duas religiões são monoteístas e ambas são religiões do livro[5], etc. Nenhuma referência é feita ao ponto de conflito, ou seja, Jesus Cristo.
Eu me pergunto por que eles ainda chamam sua religião de cristianismo. Leitores estão prevenidos então, que eu não estou aqui para demonstrar um ponto de convergência entre anarquismo e a fé bíblica. Estou defendendo o que eu creio ser o sentido da Bíblia, o que pode se tornar para mim, a verdadeira Palavra de Deus.
Acho que dialogando com aqueles que possuem diferentes visões, se for para ser honesto, devemos ser verdadeiros a nós mesmos, e não dissimular ou abandonar o que pensamos. Embora leitores anarquistas possam achar nestas páginas muitas declarações que lhes pareçam chocantes ou ridículas, isso não me preocupa.
O que, então, estou tentando fazer? Simplesmente apagar um grande desentendido pelo qual o cristianismo é culpado. Tem se desenvolvido uma espécie de corpo que praticamente todos os grupos cristãos aceitam, mas que não tem nada em comum com a mensagem bíblica, seja na Bíblia Hebraica, que chamamos de Antigo Testamento, ou nos evangelhos e epístolas do Novo Testamento.
Todas as igrejas respeitam escrupulosamente e oferecem suporte à autoridade do Estado. Elas transformaram o conformismo em uma grande virtude. Elas toleraram injustiças sociais e a exploração de pessoas umas pelas outras, declarando que é vontade divina que alguns sejam senhores e outros servos, e que sucesso sócio-econômico é um sinal externo de bênçãos divinas.
Elas inclusive transformaram uma Palavra de liberdade e libertação em moralidade, o mais espantoso aqui é que não pode existir uma moral cristã se realmente seguirmos o pensamento evangelizador. O fato é que é muito mais fácil julgar erros de acordo com uma moral estabelecida do que enxergar as pessoas como um todo vivo e entender porque elas agem como agem. Finalmente, as igrejas instituíram um clero equipado com conhecimento e poder, embora isso seja contrário ao pensamento evangelizador, como foi inicialmente realizado quando os clérigos eram chamados de ministros, oministério sendo serviço e o ministro um servo dos demais.
Por isso, devemos eliminar dois mil anos de erros cristãos acumulados, ou tradições enganadas,[6] e não digo isso como um protestante acusando católicos romanos, pois somos todos culpados pelos mesmos desvios e aberrações. Não quero também dizer que serei o primeiro a fazer esse movimento, ou que eu descobri alguma coisa. Não pretendo ser capaz de desvendar coisas escondidas desde o princípio do mundo.
A posição que eu tomo não é novidade no cristianismo. Primeiro irei estudar as fundações da relação entre cristianismo e anarquismo. Então, darei uma olhada na atitude dos cristãos dos três primeiros séculos. Mas o que eu escrevo, não é um ressurgimento súbito após dezessete séculos de obscurantismo. Sempre houve anarquismo cristão.
Em todos os séculos houveram cristãos que descobriram a simples verdade bíblica, seja intelectual, mística ou socialmente. Entre eles, há grandes nomes, por exemplo, Tertuliano, Fra Dolcino, Francisco de Assis, Wycliffe, Lutero (exceto por dois erros, de recolocar o poder nas mãos dos príncipes e de apoiar o massacre de camponeses rebeldes), Lammenais, John Bost e Charles de Foucauld.
Para um estudo detalhado recomendo o excelente trabalho de Vernand Eller[7]. Esta obra traz à luz o verdadeiro caráter do anabatismo, que rejeita o poder das regras e que não é apolítico, como comumente se diz, mas verdadeiramente anarquista, ainda com a nuance que cito ironicamente, que os poderes divinos são um flagelo enviado para punir os ímpios.
Cristãos, entretanto, se agirem de maneira correta e não forem ímpios, não precisam obedecer autoridades políticas, mas devem se organizar em comunidades autônomas à margem da sociedade e governo.
Mesmo com maior rigor e estranhamento, aquele homem extraordinário, Cristoph Blumhardt, formulou um anarquismo cristão consistente próximo do fim do século XIX. Pastor e teólogo, ele aderiu à extrema esquerda, mas não se juntou ao debate de tomar o poder. No Congresso Vermelho[8] ele declarou: “Estou orgulhoso de estar diante de você como um homem; e se a política não consegue tolerar um humano como eu, então a política que se dane!” Essa é a verdadeira essência do anarquismo: tornar-se um ser humano, sim, mas um político, nunca. Blumhardt teve que deixar o partido!
No meio do século XIX Blumhardt foi precedido no caminho anarquista por Kierkegaard, o pai do existencialismo, que não se deixou ser enredado por qualquer poder. Ele é desprezado e rejeitado hoje como um individualista. Para ser claro, ele condenou impiedosamente as massas e toda autoridade, mesmo a baseada na democracia. Uma de suas frases foi “não há engano ou crime mais horrível para Deus do que aqueles cometidos pelo poder. Por que? Porque o que é oficial é impessoal, e ser impessoal é o maior insulto que pode ser feito a uma pessoa.” Em muitas passagens Kierkegaard se mostra como um anarquista, embora naturalmente, não use o termo, pois este ainda não existia.[9]
Finalmente, a prova mais convincente de Eller é que Karl Barth, o grande teólogo do século XX foi um anarquista antes de ser um socialista, mas favorável ao comunismo, do qual se arrependeu. Esses simples fatos mostram que meus estudos não são uma exceção no cristianismo.
Juntamente com os ilustres intelectuais e teólogos, não devemos esquecer os movimentos populares, a constante existência de pessoas humildes que viveram uma fé e uma verdade que era diferente daquela proclamada pela igreja oficial, e que achava sua fonte direta mais no Evangelho do que no movimento coletivo. Essas vítimas humildes mantiveram uma fé real e viva sem serem perseguidas como hereges, pois não causaram escândalos.
O que estou adiantando, não é uma redescoberta da verdade. Ela sempre foi mantida, mas por um pequeno número de pessoas, na maioria anônimas, embora seus traços permaneçam.[10] Elas sempre estiveram lá mesmo que constantemente apagadas pelo cristianismo oficial e autoritário dos dignitários da Igreja.
Sempre que tentaram lançar uma renovação, o movimento começado nas bases do Evangelho e de toda a Bíblia foi rapidamente pervertido e reencontrou seu caminho na conformidade oficial. Isso aconteceu com os franciscanos após Francisco de Assis e aos luteranos após Lutero. Externamente, então, elas não existiram. Apenas vemos e conhecemos a pompa da grande Igreja, as encíclicas pontíficas e as posições políticas dessa ou daquela autoridade protestante.
Eu tenho um conhecimento concreto disso. O pai de minha esposa, que foi um não-cristão obstinado, me contou quando tentei explicar para ele a verdadeira mensagem do Evangelho, que fui o único a lhe dizer isso, que ele só ouvira isso de mim, e o que ouvia nas igrejas era o extremo oposto. Agora, eu pretendo não ser mais o único a dizer isso.
 Agora há uma corrente fiel subterrânea, mas não menos invisívelao fiel. É isso que está mantendo a Palavra bíblica. Isso, e não o resto – a pompa, os espetáculos, declarações oficiais, o simples fato de organização de uma hierarquia (que o próprio Jesus claramente não criou), uma autoridade institucional (que os profetas nunca tiveram), um sistema judicial (ao qual os verdadeiros representantes de Deus nunca tiveram recurso). Essas coisas visíveis são o aspecto sociológico e institucional da Igreja, porém, não mais; eles não são a Igreja. Para quem está de fora, eles obviamente são a Igreja. Embora, não possamos julgar pessoas de fora quando elas mesmas julgam a Igreja. Em outras palavras, anarquistas estão certos em rejeitar o cristianismo.
Kierkegaard foi o atacante mais violento de todos. Aqui quero deixar outra observação e dissipar alguns equívocos. Eu não vou tentar justificar o que é dito pela Igreja oficial ou pela maioria destes que são chamados de cristãos sociológicos, esses que dizem serem cristãos (felizes em diminuir números, e são eles que deixam a Igreja em tempos de crise) e aqueles que se comportam precisamente de uma maneira não-cristã, como os patronos da Igreja no século XIX, que usavam certos aspectos do cristianismo para aumentar o seu poder sobre outros.

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Uma parte do livro Anarquia e Cristianismo de Jacques Ellul.


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