Os escritos de Teresa de Ávila

Se a oração é muito negligenciada hoje, nos tempos de Teresa ela também era alvo de muita desconfi ança. Em 1525, a Inquisição condenou quarenta e oito proposições dos alumbrados (aqueles que buscavam experiências místicas através da inspiração interior). O temor da possessão demoníaca era outra preocupação à época.
Assim, a sociedade espanhola daquele tempo não via com bons olhos mulheres como Teresa, ou qualquer pessoa que tivesse experiências místicas de oração. Diante dessas circunstâncias, ela tomou a sábia atitude de buscar conselheiros espirituais e de estar aberta para descrever na sua totalidade o estado de sua alma. Ela assim fez através de vários documentos que foram publicados posteriormente.
Primeiro, ela compôs uma série de Relações Espirituais para informação de seus confessores. Em seguida, empenhou-se na descrição detalhada de sua Vida em 1562, a pedido do Padre Garcia de Toledo.
Não se trata de uma autobiografia propriamente dita, assim como as Confi ssões, de Agostinho ou Abundante Graça, de Bunyan não são biografias. Ao contrário, trata-se de uma apologia do crescimento de sua vida espiritual. Ela mesma negou que o livro fosse a história de sua vida, preferindo chamá-lo de As Misericórdias de Deus. Quando outro de seus conselheiros, Domingo Bãnez, não autorizou suas freiras a ler A Vida, elas imploraram a ela que lhes escrevesse algumas orientações simples acerca da oração vocal.
Caminho de Perfeição (1566) foi sua resposta ao pedido de que escrevesse “algumas coisas sobre a oração”. Três anos depois, ela revisou essa obra. Nela, ela enfatiza que a oração incessante é a verdadeira vida do cristão, porque Cristo está ao lado dele o tempo todo.
Teresa também havia escrito o seu Meditações sobre o Cântico dos Cânticos, possivelmente em 1566; ela o revisou entre 1572 e 1575.
Foi algo ousado de se fazer, tendo em vista a prisão do Frei Luis de Leon, de 1572 a 1577, por ter traduzido o Cântico de Salomão para o espanhol. De fato, Teresa não tinha nenhum conhecimento de latim, de modo que seu acesso às Escrituras se dava somente por meio da compreensão de referências bíblicas no breviário – um livro contendo orações, hinos, etc., que os clérigos na igreja católica memorizavam – e outros livros.
Uma solicitação adicional foi feita pelo padre Graciano em 1577 para que Teresa escrevesse outro livro sobre a vida espiritual, uma vez que a Inquisição havia tomado posse de seu livro Vida. Ela tinha sessenta e dois anos, e, após cinco anos de vida contemplativa em união com Deus, Teresa escreveu O Castelo Interior em poucos meses.
Talvez essa seja a sua obra prima sobre a vida de oração. Como mostram algumas de suas cartas, aquele ano em particular foi difícil para ela, marcado por perseguições e calúnias. No entanto, foi também um ano de riqueza espiritual. Teresa escreveu Máximas ou “Admoestações às suas freiras” em 1582; que foram publicadas com Caminho de Perfeição.
Após sua morte, Frei Luis de León editou suas Meditações ou “Solilóquios da Alma para Deus” em 1588. Eles revelam alguns dos sentimentos religiosos mais íntimos de Teresa. O Livro dos Fundamentos foi iniciado como um diário dos começos de cada uma de suas casas. Ele foi escrito de 1576 a 1582 e publicado em 1610.
Suas outras obras menores, que não estão incluídas nesta presente antologia, são: Constituições Dadas às Suas Freiras, 1568; Julgamento; e Método de Visitação dos Conventos das Freiras Carmelitas Descalças. Ela escreveu vários poemas e hinos, alguns intercalados em sua correspondência e outros manuscritos.
Allison Peers selecionou trinta e um deles. Algumas de suas 441 cartas também foram selecionadas e editadas junto com outros vinte e sete fragmentos, material que está datado entre 1546 e 1582.
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James M. Houston - Teresa de Ávila. VIDA DE ORAÇÃO - PARA QUEM DESEJA CONHECER DEUS NA INTIMIDADE, Brasília, 2007, pp. 12-14.

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