ANARQUIA DE UM PONTO DE VISTA CRISTÃO Uma parte do Livro - Anarquia e Cristianismo

O que é anarquia?
Existem diferentes formas de anarquia e diferentes correntes. Primeiramente, devo dizer qual é o meu contexto de anarquia. Por anarquia, eu primeiro me refiro à não-violência. Portanto, não posso aceitar niilistas ou anarquistas que escolhem a violência como maneira de ação. Eu certamente entendo o recurso da violência, da agressão.
Lembro-me de passar pela Bolsa de Paris e dizer a mim mesmo que uma bomba poderia ser colocada ali. Isso serve como um símbolo e um aviso. Não conhecendo ninguém que fabricasse uma bomba, não fiz nada!
O recurso à violência é explicável, penso eu, em três situações. Primeiro, temos a doutrina dos niilistas russos que se a ação é usada sistematicamente para matar aqueles que mantém o poder – ministros, generais e chefes de polícia – a longo prazo as pessoas terão tanto medo em assumir as funções do Estado, que este combalirá e será facilmente derrubado. Achamos algo parecido nos terroristas modernos. Entretanto, esta linha de pensamento subestima a habilidade dos órgãos do poder, assim como da sociedade, de resistir e reagir.
Então, há desespero quando a solidez do sistema é vista, quando a impotência de estar cara-a-cara com uma administração, ou um sistema econômico invencível (quem pode prender multinacionais?), e a violência é uma espécie de choro de desespero, um último ato no qual um esforço é feito para dar expressão pública a uma discussão ou uma odiada opressão. É o nosso desespero presente que está chorando alto, mas também é a confissão de que não há outra maneira de ação e não há razão para a esperança.
Finalmente, há o oferecimento de um símbolo ao qual eu já fiz uma alusão. Um aviso é dado que aquela sociedade é mais frágil do que se supõe e que forças secretas estão trabalhando para derrubá-la. Não interessa, entretanto, qual seja a motivação para a violência ou agressão, eu sou contrário. Sou contrário em dois níveis.
O primeiro é simplesmente tático. Vemos que movimentos não-violentos, quando bem geridos (e isso requer uma disciplina forte e boa estratégia), são muito mais efetivos do que movimentos violentos (a não ser quando uma verdadeira revolução é deflagrada).
Não pensamos apenas no sucesso de Gandhi, mas mais perto de casa é evidente que Martin Luther King fez muito pelo avanço da causa dos negros americanos, considerando que movimentos posteriores, como os Panteras Negras e os muçulmanos negros, que quiseram avançar rapidamente através do uso da violência, não apenas não ganharam nada como inclusive perderam alguns dos avanços conseguidos por King. Igualmente, os movimentos em Berlim em 1956, depois na Hungria e na Tchecoslováquia, todos falharam, mas Lech Walesa, ao impor uma forte disciplina de não-violência no seu sindicato se manteve firme contra o governo polonês.
Uma das falas do grande líder sindical dos anos 1900-1920 foi: “greves, sim, mas violência, nunca”. Finalmente, embora isso seja discutível, o grande chefe zulu na África do Sul, Buthelezi, apoiava uma estratégia de total não-violência, o oposto de Mandela (da tribo Xhosa), e por tudo, poderia fazer infinitamente mais pelo fim do Apartheid do que o que foi alcançado pela violência errática (muitas vezes entre negros) do Congresso Nacional Africano. Um governo autoritário só pode responder à violência com violência.
Minha segunda razão é obviamente cristã. Biblicamente, amor é o caminho, não violência (a despeito das guerras narradas na Bíblia Hebraica,[11] as quais eu francamente confesso serem bastante embaraçosas).[12] Não usar a violência contra aqueles que estão no poder, não significa não fazer nada. Irei demonstrar que o cristianismo significa uma rejeição ao poder e uma luta contra o mesmo. Tal fato foi completamente esquecido durante os séculos da aliança do trono com o altar, ainda mais quando o papa se tornou o líder de um Estado, e por vezes agiu mais dessa maneira do que o líder da Igreja[13].
Se eu excluir o anarquismo violento, ainda fica o pacifista, anti-nacionalista, anti-capitalista, moral e anti-democrático anarquismo (que é hostil à falsa democracia criada pelos estados burgueses). Subsiste ainda o anarquismo que age pelos meios de persuasão, pela criação de pequenos grupos e redes, denunciando falsidade e opressão, visando uma real derrubada de todos os tipos de autoridade, com as pessoas falando ao fundo e se organizando. Tudo isso é muito próximo a Bakunin.
Entretanto, ainda há o ponto delicado da participação em eleições. Os anarquistas devem votar? Caso sim, devem formar um partido? De minha parte, assim como muitos anarquistas, eu acho que não. Votar é tomar parte na organização da falsa democracia que foi instaurada forçadamente pela classe média. Não importa se o voto é para a esquerda ou para a direita, a situação é a mesma. E, para organizar um partido, é necessário adotar uma estrutura hierárquica e o desejo de ter uma parte no exercício do poder.
Não podemos esquecer em que grau a presença do poder corrompe. Quando os antigos socialistas e sindicalistas chegaram ao poder na França em 1900- 1910, um forte argumento, é que eles se tornaram os piores inimigos do sindicalismo. Temos só que lembrar de Clémenceau e Briand. Esse é o porque, em um movimento muito próximo ao anarquismo, como os ecologistas, sempre me opus à participação política. Sou totalmente hostil aos movimentos verdes, e na França, temos visto muito bem quais são os resultados da participação política dosEcolos (ambientalistas) em eleições.
O movimento se dividiu em vários grupos rivais, três líderes declararam sua hostilidade publicamente, debates de falsas questões enevoaram o verdadeiro objetivo, dinheiro foi gasto em campanhas eleitorais e nada foi conquistado. De fato, a participação nas eleições reduziu fortemente a influência do movimento. O jogo político pode deixar de produzir importantes mudanças na sociedade e devemos rejeitar radicalmente tomar parte nisso.
A sociedade é muito complexa. Interesses e estruturas estão extremamente integrados uns aos outros. Não podemos esperar modificá-los pelo caminho da política. O exemplo das multinacionais é o suficiente para nos mostrar isso. Na visão da economia global solidária, a esquerda não pode mudar a economia de um país quando está no poder. Aqueles que dizem que uma revolução global é necessária, se não vamos apenas mudar o governo, estão corretos.
Mas isso significa então que não devemos agir? Isso é constantemente ouvido quando avançamos em uma tese radical. Como se o único modo fosse a política! Eu creio que anarquia primeiramente implica em objeção consciente – a tudo que constitui nossa sociedade capitalista (ou socialista e degenerada) e imperialista (seja burguesa, comunista, branca, amarela ou negra). Objeção consciente é uma objeção não somente ao serviço militar, mas a todas as demandas e obrigações impostas pela nossa sociedade: impostos, vacinações, educação compulsória, etc.
Naturalmente, sou favorável à educação, mas apenas se adaptada à criança e não obrigatória quando as crianças são obviamente não preparadas para aprender dados intelectuais. Temos de moldar a educação de acordo com os dons das crianças.
No que diz respeito à vacinação, tenho em mente um exemplo notável. Um amigo meu, um homem letrado, licenciado em matemática e anarquista (ou muito próximo de ser), decidiu retornar ao campo. Na dura região de Haut- Loire[14], ele criou gado por dez anos nos altos planaltos. Ele se negou – esse é o ponto da história – a vacinação obrigatória contra doenças do casco e da boca, alegando que se ele os criasse cuidadosamente, distante de qualquer outro rebanho, não haveria perigo de contrair qualquer doença. Foi aí que os problemas começaram a se tornar interessantes.
Oficiais veterinários vieram até ele e lhe aplicaram uma multa. Ele levou o caso à corte, mostrando provas da incompetência e de acidentes ligados à vacinação. Ele perdeu a primeira, mas na apelação, com a ajuda de relatórios de biólogos e veterinários importantes, foi triunfantemente absolvido. Esse é um ótimo exemplo do caminho em que podemos encontrar um pequeno espaço livre em um emaranhado de regulamentos. Mas nós temos que querer, não desperdiçar nossas energias, e atacando um único ponto, vencendo por repelir a administração e suas regras.
Temos uma experiência parecida na luta contra a Comissão Costeira da Aquitânia[15]. Através de enormes esforços, conseguimos bloquear certos projetos, que seriam desastrosos para a população local, mas apenas sob julgamento, até mesmo nos níveis mais altos.[16]Naturalmente, essas ações eram pequenas, mas, se realizássemos muitas delas, e fôssemos vigilantes, colocávamos em xeque a onipresença do Estado, apesar da “descentralização” promovida ruidosamente por Defferre, que fez a defesa da liberdade mais difícil. O inimigo hoje não é o Estado central[17] mas a onipresença da administração.
É essencial que apresentemos objeções a tudo, especialmente à polícia e à desregulamentação do processo judicial. Devemos desmascarar a falsidade ideológica dos vários poderes, e devemos especialmente mostrar a famosa teoria da regra da lei, que embala a democracia, que é uma mentira do começo ao fim. O Estado não respeita suas próprias regras. Devemos desconfiar de todas suas ofertas. Devemos sempre lembrar que quando ele paga, ele escolhe a música.
Recordo dos clubes de prevenção que fundamos em 1956 para lidar com jovens desajustados. Nossa premissa era que não eram os jovens os desajustados, mas a sociedade em si.[18] Enquanto os clubes eram financiados por muitas maneiras, incluindo subsídio, eles iam bem e progrediam, não ajustando pessoas à sociedade, mas ajudando-as a formar suas próprias personalidades e substituir atividades destrutivas (drogas, etc.) por atividades construtivas e positivas. Entretanto, tudo mudou quando o Estado tomou para si o financiamento total, sob as idéias de Mauroy, o ministro, que tinha sua própria idéia de prevenção, criando o Conselho Nacional de Prevenção, que foi um desastre.
Um ponto importante que quero enfatizar é que houveram muitos esforços sugeridos ao longo das linhas. Tenho em mente um muito importante, que é a objeção aos impostos. Obviamente, se pagadores individuais decidirem não pagar seus impostos, ou não pagarem a parte proporcional a gastos militares, isso não é um problema para o Estado.

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Parte do livro de Jacques Ellul - Anarquia e cristianismo.

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