
O salmo 23, O Senhor é meu pastor: nada me falta é um dos mais conhecidos. Foi o mais comentado na tradição e o mais assimilado na piedade popular. E há boas razões para isso. Pois trata-se de um salmo que une simplicidade com enlevo lírico e espiritual de forma extremamente bem-sucedida.
A transparência e a comoção que ele desperta fizeram com que, em todos os tempos, o salmo 23 ganhasse admiradores e devotos. Foi e é orado por pessoas de todas as tradições religiosas e por aqueles que, mesmo sem adesão a um credo, alimentam uma dimensão espiritual em suas vidas.Vamos aqui analisar o salmo como um todo e cada um de seus versos, tentando extrair o ouro escondido nessa mina tão antiga e tão contemporânea. Para isso nos servem os tantos estudos feitos ao longo do tempo, aos quais, em sua grande maioria, tivemos acesso. Mas não queremos fazer obra de erudição como quem disseca uma flor.
A natureza poética do salmo pede que desenvolvamos em nós o mesmo tipo de sentimentos.Os salmos emergem da vida com suas contradições, com suas luzes e com suas sombras. O salmo 23, por estar enraizado na vida real, não escapa desta mesma dialética. Ele tem como pano de fundo um drama: há o vale tenebroso, vale da morte, há inimigos, há perseguição. É no contexto desta situação que Deus comparece como pastor e como hospedeiro. Ele nos assegura: ‘Eu estou contigo’, ‘nada te falta’ e ‘habitarás na Casa do Senhor todos os dias de tua vida’. Porque há temor, medo e perseguição, experimenta-se a proximidade de Deus, como pastor e como hospedeiro que prontamente nos socorre e reanima nossas forças.
O salmo assegura: Deus toma partido. Ele está de um lado da contradição, do lado de quem teme e é perseguido. Por isso podemos serenar e ficar confiantes."
________________
Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, em 1938. Autor de mais de 60 livros, atualmente é professor emérito de ética e de ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e membro da Comissão da Terra.
Nenhum comentário:
Postar um comentário