sábado, 28 de junho de 2008

Abraão, justificado pela fé.........


- Texto para reflexão: "Porque, se Abraão foi justificado por obras, tem de que se gloriar, mas não em relação a Deus. Pois, que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado por justiça" (Romanos 4:2,3).


Pois se Abraão foi justificado por obras.O argumento é incompleto e precisa ser posto na seguinte forma: "Se Abraão foi justificado por obras, então ele pode vangloriar-se em seu próprio mérito, porém não tem razão alguma de vangloriar-se na presença de Deus. Portanto, ele não é justificado por obras". Assim, a cláusula porém não em relação a Deus constitui a proposição menor do silogismo, e a esta deve acrescentar-se a conclusão que já expus, ainda que a mesma não esteja expressa por Paulo. Ele dá o título de ´gloriar-se´ quando pretendemos ter algo propriamente nosso que no juízo de Deus mereça recompensa. Quem dentre nós reivindicará para si a mínima partícula de mérito, quando o mesmo foi negado a Abraão? Pois, que diz a Escritura?Esta é a prova de sua proposição ou hipótese menor, na qual ele negou possuísse Abraão alguma base para gloriar-se. Se Abraão foi justificado em razão de haver abraçado a munificência divina, mediante a fé, segue-se que ele não tem por que gloriar-se, visto que não traz nada propriamente seu exceto o reconhecimento de sua própria miséria que clama por misericórdia. O apóstolo está pressupondo que a justiça procedente da fé é o referencial de obras. Se houvesse alguma justiça procedente da lei ou das obras, então ela residiria no próprio homem. Todavia, este busca na fé o que não encontra em nenhum outro lugar. Por esta razão é que corretamente se intitula: justiça imputada pela fé. A passagem citada é extraída de Gênesis 15:6, na qual o verbo crer não deve ser restringido por alguma expressão particular, mas refere-se ao pacto da salvação e à graça da adoção como um todo, os quais diz-se ter Abraão apreendido pela fé. Há mencionada ali, é verdade, a promessa de uma progênie futura, porém a mesma teve por base a adoção gratuita. Deve-se notar, contudo, que a salvação não é prometida independentemente da graça de Deus, nem a graça de Deus, independentemente da salvação. Igualmente, não somos chamados à graça de Deus, ou à esperança da salvação, sem que a justiça não seja ao mesmo tempo oferecida. Se assumirmos esta postura, torna-se evidente que aqueles que pensam estar Paulo arrancando a declaração mosaica de seu contexto, não entendem os princípios da teologia. Visto haver uma promessa específica afirmada na passagem, então entendem que Abraão agiu correta e honradamente, ao crer nela, e que por isso recebeu a aprovação divina. Sua interpretação, porém, é equivocada, aqui; primeiro, porque não percebem que crer se estende a todo o contexto, e não deve, portanto, restringir-se a uma cláusula. O principal equívoco, contudo, esta em sua falha em começar com o que se acha asseverado sobre a graça de Deus. Este conferiu a Abraão sua graça com o fim de fazê-lo ainda mais convicto da adoção divina e do favor paternal de Deus, nos quais se acha inclusa a salvação eterna através de Cristo. Por esta razão Abraão, ao crer, abraçou nada mais nada menos que a graça a ele oferecida, para que o seu crer não fosse destituído de efeito. Se isto lhe foi imputado para justiça, segue-se que a única base de sua justiça consistia em sua confiança na munificência divina e em sua ousadia em esperar todas as coisas como provindas de Deus. Moisés não relata o que os homens pensavam de Abraão, mas, sim, o caráter que ele possuía diante do tribunal divino. Abraão, pois, apoderou-se da bondade divina que lhe era oferecida na promessa, e por meio da qual percebeu que a justiça lhe estava sendo comunicada. A fim de determinar o significado de justiça, é indispensável que se entenda esta relação entre promessa e fé, porquanto existe a mesma relação entre Deus e nós, assim como judicialmente existe entre o doador e o recipiente. Alcançamos a justiça somente porque ela nos é comunicada pela promessa do evangelho, e assim discernimos que a possuímos pela fé.Já expliquei, e pretendo explicar mais plenamente, se porventura o Senhor mo permitir, quando tratar da Epístola de Tiago, como devemos conciliar a presente passagem com aquela epístola, como se houvesse entre elas alguma contradição. Cabe-nos simplesmente notar que aqueles a quem a justiça é imputada são justificados, visto que Paulo usa estas duas expressões como sinônimas. Concluímos daqui que a questão não é o que os homens increntemente são, e, sim, como Deus os considera, não porque pureza de consciência e integridade de vida são distintas do gracioso favor de Deus, mas porque, quando se busca a razão por que Deus nos ama e por que ele nos reconhece, é necessário que Cristo seja contemplado como Aquele que nos veste com sua própria justiça.

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João Calvino, nasceu a 10 de julho de 1509, na cidade francesa de Noyon. Formado em Direito em 1532, aos 23 anos era já um humanista conhecido. Em 1536 publicou as Institutas da Religião Cristã, uma grande obra que norteou a Teologia Reformada. Morreu em 27 de Maio de 1964.

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