SUA ALTEZA, O MENDIGO. XLVII


A esmola é um gesto caritativo que, ao mesmo tempo em que mitiga a fome do mendigo, o degrada em sua dignidade, enquanto tenta engrandecer o esmoler. Aquele que dá uma esmola, por menor que seja, sente-se aliviado em sua consciência pelo ato de altruísmo, ainda que possa nutrir uma culpa por ter um pouco mais do que o pedinte. Benemerência pode ser um surto de culpabilidade ao coletivo.
A esmola é uma doação ao demérito. O mendigo, como um pária social, não faz jus ao donativo que recebe e ainda gera dolo no filantropo, que tendo mais condições do que o indigente, acaba ficando acusado por dar tão pouco.
Em qualquer das circunstâncias a esmola é constrangedora. Ela se mostra como um incômodo imperioso que só mata a fome do carente, embora não satisfaça a decência humana, nem o contentamento daquele que é o doador. O fulano que a recebe, suaviza a sua dor imediata, mas não a sua fome de significado pessoal. O que a dá, abranda a culpa particular, contudo ainda mantém um débito de valor impagável, por ter mais sucesso.
Dar bolsas de amparo às famílias desprovidas poderia ser um gesto de magnanimidade, se os carentes não fossem eleitores e os dadivosos não fossem políticos, negociando o voto, com o estomago do necessitado. É triste ver um país como o Brasil sendo transformado num curral eleitoral, financiado com dinheiro público pelos coronéis do desmando aético da pós-modernidade despótica, sob a seqüela apática do povo.
Entendo que a esmola da graça é uma dádiva imerecida ao privado de dignidade, mas também, desprovido de qualquer possibilidade de retribuição. O banquete aos miseráveis, demonstrado por Jesus, é um jantar que não dá lucro ou recompensa para quem o promove. O convidado é tão pobre que nunca poderá pagar a benção recebida. Só assim, viver de caridade tem algum sentido.
Graça ressarcida é mercadoria do comércio sórdido dos filhos do coisa-ruim. Tentar indenizar o favor imerecido é uma arrogância cavalar de gente estupidificada. Do mesmo modo, ninguém pode comprar a lealdade política de um faminto com um prato de comida, nem exigir que o favorecido tenha que compensar com o seu voto, o benefício recebido. Só os crápulas protegem os carentes, com o fim de serem gratificados.
Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. Mateus 6:2-4. Donativos propalados e dádivas requerendo reconhecimento fogem às características da verdadeira beneficência. Cuidado com gente que dá um prato de sopa, com o fim ser laureada como benemerente.
_____________________________
Glenio Paranaguá – mendigo-padrão.

Comentários

Job Q. Vieira disse…
Muito legal este texto. Um grande abraço!!!

Postagens mais visitadas