Uma palavra de desamparo

- Texto de reflexão: A hora nona, clamou Jesus em alta voz: Eloí, Eloí, lamá sabactâni; Que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Marcos 15.34).

A crucificação do Senhor da glória foi o evento mais extraordinário que já aconteceu na terra, e esse brado do mestre foi a expressão mais terrível de se dizer. Porque era um inocente condenado naquele madeiro. O Mestre divino não tinha culpa para que fosse pendurado naquela cruz e fosse cruelmente sentenciado à morte. Aquele evento na história seria para ladrões e criminosos de alguma espécie. Mas, Jesus não tinha motivos humanos para estar pendurado ali.
O fato é que nos perguntamos: Não é estranho que o Deus manifestado na carne se permitisse ser tratado por seus inimigos naquele madeiro? É extremamente estranho que o Pai que se deleitava nele, devesse entregá-lo a uma morte tão vergonhosa.
Mais estranho ainda, quando olhamos para nós mesmos e percebemos o quanto pecadores somos. Daí que achamos ainda mais estranho o fato de um Deus tão santo, tão puro, tão imaculado poder se dar numa cruz do Calvário em favor de nós.
Ele o fez e na hora mais dura, quando ele agoniza porque recebeu nele mesmo o peso do nosso pecado, quando ele experimentou mais profundamente a marca do nosso pecado, da nossa pena de dívida. Nesta hora dura, ele clama do fundo do ser. O Jesus encarnado, o Deus homem clama: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
Essas são palavras de estarrecedora miséria. A própria palavra “desamparar” é uma das mais trágicas em todas as línguas humanas. Que dureza de tal palavra! — Um homem desamparado de seus amigos, uma esposa desamparada de seu marido, uma criança desamparada por seus pais! Mas uma criatura desamparada por seu Criador, um homem desamparado de Deus — Isso é o mais terrível de tudo! Na nossa relação com o Senhor podemos parar para pensar na possibilidade dele esconder a sua face de nós por um momento que seja! Isto seria algo absolutamente insuportável.
De alguma forma naquele momento o Filho amado do Pai por causa da carga dos nossos pecados, sentiu-se só! O nosso mestre foi desde toda eternidade o objeto do amor do Pai, mas naquele instante, pendurado no maldito madeiro, era tratado como pecado por nós, como nos ensina Paulo em II Corintios 5.21: Aquele que não conheceu pecado. Ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.
Todos nós quando lemos o texto sagrado perguntamos: O que deve ter significado estar “desamparado” por Deus?
Nesta hora de profunda dor e recebimento desta carga da pena dos eleitos podemos sim, concordar com A. W. Pink que diz ser este momento o ocultamento da face divina, o mais amargo ingrediente daquele copo que o Pai tinha dado ao Redentor para beber (PINK, A. W. Os sete brados do Salvador sobre a cruz. São Paulo: Arte Editorial, 2009, p. 75). Daí o mestre dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
Essas são palavras de inigualável sentimento. Elas marcam o clímax de seus sofrimentos. Os soldados cruelmente zombavam dele: enfeitaram-no com a coroa de espinhos, tinham-no açoitado e esbofeteado, tinham até chegado a ponto de cuspir nele e arrancar seus cabelos. Despojaram-no de seus vestidos e o expuseram a uma vergonha explícita.
E o fato é que ele sofreu tudo isso em silêncio. Perfuraram suas mãos e seus pés, porém suportou a cruz, a despeito da ignomínia. A multidão vulgar escarnecia dele, e os ladrões com ele crucificados lhe lançavam em rosto os mesmos insultos. Mas, como profetiozou Isaías ele não abriu sua boca. Em resposta a tudo que sofria das mãos dos homens, nenhum clamor escapou de seus lábios. Mas agora, quando a ira concentrada do trono divino desce sobre si, ele clama: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
Foi um clamor que fez a própria terra estremecer, todo o Universo sentiu, mas em nome da aliança com os eleitos o mestre sofrendo, continuou na cruz pendurado, mesmo depois destas palavras.
Louvado seja o Redentor que padeceu, morreu, e depois de ressuscitar, trouxe pela graça vida e vida em qualidade para nós o seu povo!

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Alcindo Almeida

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