Os mendigos de espírito

Mendigo não tem emprego, nem carteira assinada. Ele não faz parte das estatísticas do governo, nem é contado como mão de obra produtiva. Sua existência depende da esmola da graça, por isso mesmo ele não paga impostos, mas também não recebe benefícios da previdência social. O mendigo não é ninguém, embora seja um ser livre.
Ainda que tenha o seu ponto na calçada, contudo nunca assina o seu cartão de ponto, uma vez que ninguém aponta, nem mesmo a ponta do seu dedo para tocar na ferida da sua alma rejeitada. Sua agenda, entretanto, encontra-se aberta, ainda que, sem a certeza do seu sustento de cada dia. Aliás, ele só consegue algum trocado, quando sopram os ventos da misericórdia em algum coração liberal, que passa ali por perto.
Por falar em liberalidade, que tal esta festança da generosidade governamental? Enquanto os mendigos vivem a clamar pro vento que sopre uma moeda, os proventos dos políticos só os engordam como porcos na ceva. É uma vergonha esta porcada obesa com o dinheiro público, que financiaria o sustento digno dos mendigos abandonados.
“Ó liberdade, quantos crimes têm sido cometidos em teu nome!” A democracia me parece que é o governo do Demo, que veio para roubar, matar e destruir. Não é a falta de dinheiro que impede os programas sociais, é a falta de vergonha, dos larápios, que não se importa que os indigentes construam os seus barracos num montão de lixo. Depois, São Pedro é que leva a culpa da tragédia. Que horror é a hipocrisia dos governantes!
Sua Alteza, o mendigo é pobre, mas não é podre, nem estúpido. Ele depende da esmola da graça, todavia, não é cego. Ele enxerga e bem e também se indigna. Enquanto ele pede um trocado, lhe dão um truco. Parece que não há escolha. Parece, mas neste regime do Demo, o mendigo ainda vota, e isto pode fazer a diferença. O voto até veta o pilantra e o desagravo é o troco pela falta do trocado na mesa do indigente. Se os mendigos tiverem consciência, o sufrágio será o revide pelo descaso com o ser humano.
Os mendigos de espírito não são revolucionários, tampouco omissos. Eles não fazem um quebra pau, nem quebram o compromisso com a verdade e a justiça. São discretos, sem abdicarem ao direito da contestação. É tempo de repulsa e desprezo aos que desprezam a dignidade da pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus. Você não pode excluir a sua participação nesta luta. Você vota e isto conta.

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Glenio Paranaguá – mendigo-padrão.

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