Não querem me deixar ser eu mesmo

Seja, porém, a tua palavra: sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno (Palavras de Jesus conforme Mt 5:37)

Estamos vivendo tempos de muitos conflitos, principalmente no que diz respeito à política (pela proximidade das eleições); assim também no campo social (uma sociedade vazia de princípios e valores éticos e morais); e ainda no campo religioso, onde as carências, ante as imensas demandas do ser humano, encontram soluções aparentes em propostas as mais absurdas, contraditórias e até mesmo inconseqüentes.
Revendo um material utilizado num curso de especialização em aconselhamento pastoral, onde recebemos a ministração do amigo e professor Dr. Zenon Lotufo Jr, pude me deparar com algumas de suas considerações sobre “Comunicação na Intimidade”, onde o brilhante professor falava sobre os vários níveis de comunicação, seus objetivos e a sua relação com as necessidades essenciais do ser humano.
Diante da atualidade desse texto e da relevância para o momento que vivemos, gostaria de explorá-lo nesse desabafo reflexivo.
Vivemos dias em que a autenticidade e a verdade são relativizadas de forma vergonhosa e manipuladora. R. de Pury, na abertura da V Encontro Internacional de Genebra (Suíça) na década de 50, conclamava o mundo com um forte apelo à autenticidade.
Ela tem a ver com a própria verdade: “O Espírito quer que todo homem seja plenamente, absolutamente, eternamente, ele próprio”, disse ele.
 
I – UMA LEITURA POLÍTICA

O que temos assistido em nosso mundo e particularmente em nosso país é o desenvolvimento de líderes que “editam” um versão de si mesmos para “o consumo” das massas. Como disse Brennam Manning (autor de “O Evangelho Maltrapilho”): “A vida em torno do “falso eu” gera o desejo de apresentar ao público uma imagem perfeita, de modo que todos nos admirem e ninguém nos conheça”.
Isso traz em si mesmo algo de maligno. É viver uma vida que não é, só representa ser. Onde o papel que represento é o que importa, mesmo que o “meu eu profundo” não esteja nele. Contanto que, entre mim e as coisas boas ou más que eu faço e que eu digo, a mentira se tenha introduzido, separando a minha vida de mim mesmo.
Acostumamo-nos a parecer aquilo que não somos. As imagens são retocadas; os currículos, maquiados; os entrevistados, treinados a dizer o que se espera deles; as que detêm o poder estão acima do bem e do mal.
Assim, conseguimos explicar e ler o momento político que vivenciamos nesses últimos tempos. Perdemos nossa liberdade pela ditadura do poder (anos 60) e atualmente pela ditadura da mentira.
Uma das crenças mais características de nossa época é que para cada problema existe uma solução técnica. A tecnologia representa papel dos mais úteis em nossas vidas hoje, mas não pode resolver situações que dependam de fatores pessoais, como caráter e verdade.
Para cada denúncia, desvio de conduta ou escândalo, uma explicação técnica e surreal. Tudo isso, talvez, fruto das opções que temos feito como sociedade através de nossas escolhas, decisões, relativização de valores e princípios.
Stephen Covey (consultor norte-americano, autor do best seller “Os Sete Hábitos das Pessoas Muito Felizes “ Ed Best Seller, São Paulo), fala em seu livro sobre a mudança do conceito de sucesso ao longo da história recente.
Passamos da Ética do Caráter, onde ressaltava-se a importância de interiorizarmos qualidades como humildade, fidelidade, persistência, coragem, justiça, paciência, diligencia, modéstia e o que ele chama da “a regra de ouro”: fazer aos outros o que desejamos que nos façam”, para a Ética da Personalidade, onde o sábio é usar estratégias manipuladoras e enganosas. Não há nenhuma preocupação pela autenticidade e verdade uma vez que, representando-se bem o papel e usando-se técnicas apropriadas é possível ser bem sucedido e alcançar-se o sucesso.
As referencias à Ética do Caráter passaram a surgir apenas como enfeite. O que importa é a técnica de influencia imediata, a estratégia de poder, a habilidade na comunicação e atitudes positivas conquistadoras.
Há uma inversão dolosa e danosa. Perdemos a compreensão de que o que somos se transmite com muito mais eloqüência do que as coisas que fazemos ou dizemos.
 
II – UMA LEITURA SOCIO RELIGIOSA

Nossa sociedade tem feito suas escolhas, e estas tem feito e construído a sociedade que temos. Em troca de uma liberdade verdadeira, de “sermos nós mesmos”, abrimos mão de nossa natureza naturalmente expressa e explícita, por uma suposta “opção” de sexualidade, numa tentativa imprópria de lidar com aqueles que convivem com um estranhamento de si mesmos e dos outros, e de suprir ausências emocionais, frustrações e traumas psíquicos.
O que dizer de doutrinas religiosas que tem se multiplicado nesses últimos anos e que tem em sua idéia central o não reconhecimento ao homem da sua liberdade e a exigência mais sagrada a ele: “a de ser ele mesmo”.
Essa “negação de si mesmo” nos exime de qualquer juízo ou justiça, pois, “você representou bem ou mal o seu papel, mas nunca existiu, nunca foi você mesmo, senão “um outro” ser reencarnado”.
Uma das definições que o filósofo existencialista Soren Kierkgaard dá do desespero é: “não sermos nós próprios”. Essa é uma “doença mortal de que ninguém se apercebe a não ser quando começa a curar-se.
Nosso convite a você é para a reflexão e avaliação; a um teste de autenticidade. Paulo, o apóstolo, recomendou isso aos Coríntios: “Examinem-se para ver se vocês estão na fé; provem-se a si mesmos” (II Co 13:5).
Que Deus o abençoe rica e abundantemente,
Em Cristo,
Rev. Hilder C Stutz

Comentários

Postagens mais visitadas