A cura pela Palavra ou a palavra que cura


“Tu me mostras o caminho que leva à vida. A Tua presença me enche de alegria e me traz felicidade para sempre.” (Salmo 16:11)

Muita gente sofre com os males que atingem o homem moderno. A depressão já é considerada uma epidemia, e se apresenta como um fantasma cuja presença indesejada obscurece a mente humana ou, pior, torna-se uma prisão cujos muros, embora visíveis, são praticamente intransponíveis. O medo que adoece nossas emoções, nos leva à preocupação exagerada, desperta pensamentos de tensão. A ansiedade, a angústia, os traumas, a insegurança, a rejeição, a insatisfação.
Como enfrentar tantas e tão grandes demandas em nossa existência? Como suportar essas pressões internas, que nos fazem adoecer o corpo e a alma; que se exteriorizam e são traduzidas na forma como vemos o mundo ao nosso redor, o outro com o qual nos relacionamos ou de quem nos afastamos?
Creio que esse processo passa por uma necessária cura interior. Mas como experimentá-la?
Se olharmos para a Psicanálise, através de seu principal expoente – Sigmund Freud (1856-1939), encontraremos a crença da “cura pela palavra”. Ele afirmou: “sofremos de reminiscências que se curam lembrando”. Para ele, a palavra aos poucos se apresenta como uma chave precisa que profere acesso aos portões da alma. Compreender a palavra é uma arte.
Assim, a terapia se apresenta como uma forma de comunicação entre o EU e o OUTRO, mas não só isso, e mais importante ainda, como um instrumento de interlocução entre o nosso “eu externo” (Ego) e o nosso “eu interior”.
Muitos tem buscado e encontrado ajuda nas terapias. Outros tem adoecido nessa própria busca. Um crítico literário, ensaísta e romancista americano (Daphne Merkin) num artigo recente publicado na revista “Times Magazine” conta sua trajetória de 45 anos de análise dizendo: “Minha fé inabalável na possibilidade de auto-transformação me impeliu de um terapeuta a outro, eternamente à procura de algo que parecia fora de meu alcance”.
Gostaria de pensar numa trajetória de nossas buscas em duas dimensões: a cura pela palavra e a palavra que cura.
Assim sendo, sugiro desenvolvermos três posturas:

I – FALE CONSIGO MESMO

Muitas vezes a ansiedade toma conta do nosso coração e nos abate, por deixarmos nos envolver pelo medo, pela insegurança, pela angústia. E, muitas vezes, essa perspectiva traduz uma pré-ocupação com fatos que além de não estarem presentes e serem apenas possibilidades, na maioria das vezes sequer irão se tornar fatos concretos.
Some-se ainda que, nesses momentos de estresse, nossa visão parece ofuscada quanto a princípios, valores e fundamentos que inclusive cremos como verdade, mas que não conseguimos transformar em atitudes e força para reagirmos diante de nossas demandas.
Isso me remete a uma atitude do salmista bíblico (Sl 42) quando diante de várias emoções em conflito, misturando-se a tristeza e a alegria, o medo e a fé, a dúvida e a devoção a Deus, estabelece um diálogo do seu “eu externo” com o seu “eu interior” traduzindo isso numa repetida indagação: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro e mim?” (Vs 5 e 11).
Alimente sua alma de sonhos; encha-a de esperança, pois isso é curador e transformador. Salomão escreveu: “A esperança que se adia faz adoecer o coração, mas o desejo realizado enche o coração de vida.” (Pv 13:12).
 
II – FALE COM O OUTRO

Através da palavra podemos afetar o outro e sermos afetados pelo outro. Transforme isso numa possibilidade positiva de crescimento.
Estabeleça momentos de conexão, no qual a humildade e o amor possam ser exercitados, suscitando esperança no outro ou através do outro.
Relatórios do governo americano dão conta de que a disposição de ouvir (através de um contato telefônico atendidos por um terapeuta ou conselheiro) veteranos de guerra impediu a morte de cerca de 10 mil desses veteranos.
Busque também desenvolver amizades sinceras e saudáveis, através de relacionamentos que o permitam falar, pois, um amigo é uma pessoa com a qual eu posso ser sincero e honesto, diante do qual posso pensar em voz alta. Aristóteles (filósofo grego do séc IV) dizia: "Amigos verdadeiros são um refúgio seguro".
“Em todo o tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão.” (Pv 17:17)
 
III – FALE PARA O ALTO

Uma das mais ricas experiências que tenho vivido ao longo de minha história é a possibilidade de falar com Deus e de ouvi-lo falar comigo. Nisso tenho encontrado as duas dimensões que dão origem a nossa reflexão de hoje.
Uma delas me permite conhecer a “cura pela palavra”, pois posso falar a Ele das minhas dores, lutas, medos, angústias, ansiedades. Posso expor-lhe minha insatisfação; compartilhar minhas decepções. Até as minhas queixas Ele ouve com uma atitude curadora e amorosa.
E quando lhe exponho todos esses sentimentos, de uma forma que sequer posso compreender, sou compelido a uma atitude de devoção e gratidão para com seu amor constrangedor que me enche de esperança e fé.
Na outra dimensão: a “palavra que cura” descubro a cada palavra proferida por Deus, uma fonte inesgotável de vida.
Encontro discrição, intimidade e privacidade: “Tu me esconderás no secreto da Tua presença” (Sl 31:20). Encontro direção e renovo à minha alma às vezes confusa e cansada: “Tu me mostras o caminho que leva à vida. A Tua presença me enche de alegria e me traz felicidade para sempre”. (Sl 16:11). Encontro, enfim, a cura que tanto desejo: “Enviou-me a sua palavra e me sarou...”. (Sl 107:20).
Exercite esses princípios. Você fará descobertas preciosas e ricas para e em sua caminhada de vida.
Que Deus o abençoe rica e abundantemente,
Em Cristo,
Rev. Hilder C Stutz
Fale com o outro, mesmo que o momento seja de angústia, aflição, tensão, dúvida ou medo. Compartilhe sua dor. Busque ajuda.

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