SUA ALTEZA, O MENDIGO. XLIII


O velho mendigo se matriculou na escola da fé. Sua primeira aula foi sobre a metodologia auditiva. Aprender a escutar o silêncio. A voz de Aba é mais suave que o cicio da brisa, enquanto a fé é o mistério da palavra confidencial, ouvida no secreto do coração.
Os barulhos da alma são ensurdecedores. Uma boca calada e um ambiente sossegado não garantem tranqüilidade para a mente, nem ausência de ruídos interiores, capazes de ouvir a voz de Deus.
Ouvir a voz celestial não é tarefa fácil e, sem esta fala divina, não há fé. O Espírito diz que a fé só aparece quando Deus conversa com ternura. O problema é que ele, quando discorre suavemente, essa tonalidade é imperceptível ao ouvido físico. A voz do Altíssimo é um sussurro baixíssimo, delicada e sutil. Ele sopra doce e elegantemente do seu Espírito ao nosso espírito em harmoniosa dicção espiritual com a sua requintada palavra.
A voz audível de Deus no mutismo da alma e na calmaria do ser é a matriz da fé. O velho mendigo de Tarso descreveu assim o processo real da confiança. A fé vem pelo ouvir, e o ouvir vem pela palavra de Cristo. Romanos 10:17. Onde não há a escuta interior da palavra de Deus, não haverá a menor probabilidade do aparecimento da fé verdadeira.
O curso da fé começa com a audição silenciosa. O Mestre é claro: Quem tem ouvidos [para ouvir], ouça. Mateus 11:15. Tem gente que só escuta fisicamente, mas é surda no espírito. O ensurdecimento espiritual incapacita o discípulo de ser aprovado na fé.
Pedro foi arrojado ao andar sobre as águas. Ele, num primeiro momento, ouviu a voz do Senhor e andou sobre o tapete vermelho da Palavra de Cristo. O “vem” de Jesus lhe deu sustentabilidade sobre a face do mar, mas o vento e as ondas o levaram a afundar. Ele ouviu, por um instante, a voz que gera a fé, para, logo em seguida, ficar insensível pela dúvida. Aqui, não basta ouvir. É preciso continuar ouvindo o concerto da fidúcia eterna.
Se quisermos tomar parte na escola da fé, temos que aprender ouvir a voz de Cristo na suavidade do seu falar. Para intuir a sua voz é necessário silêncio profundo no interior de nosso ser.
A alma só ficará silente quando todos os seus segredos forem elucidados diante de Aba, a fim de se perceber aceita. A pessoa justificada goza profunda paz e, consequentemente, se aquieta diante do trono para ouvir a voz aprazível condutora da fé. É neste instante que surge a oração dos filhos de Aba. Esta é a lição inicial da fé. Boa aula.
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Glenio Paranaguá – mendigo-padrão.

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