Fitando os olhos em Deus

- Texto para reflexão: Pela manhã ouves a minha voz, ó Senhor; pela manhã te apresento a minha oração, e vigio (Salmos 5.3).

Um aspecto importante da lida espiritual com o tempo é a prática da contemplação. Contemplatio no latim significa propriamente olhar para; fitar. Olho para dentro do espaço da alma, a fim de fitar a luz interna e olhar para Deus, que está dentro de mim. Mas, ele não pode ser visto diretamente como imagem ao lado de outras imagens, e sim como o modelo presente em toda e qualquer imagem. Contemplari designa um olhar no qual eu me esqueço de mim mesmo. Contemplando, eu me uno ao contemplado.
Nessa unificação, o tempo pára; então, já pressinto algo da eternidade. Na tradição cristã, a vida eterna com Deus é entendida como uma bem-aventurada contemplação do Senhor. Contemplar transcende o tempo. Na eternidade, não ouviremos a Deus; mas o contemplaremos. Enquanto o ouvir acontece no tempo, o contemplar é intemporal. Contemplando, o tempo pára.
Toda manhã, depois das matinas, quando eu pratico a contemplação com a oração isso tem sua conseqüência. Enquanto pronuncio a oração eu olho para dentro do meu coração, em que acredito que Cristo está presente. Muitas vezes, nessa contemplação, tenho a experiência de que o tempo parou e de eu estar totalmente presente.
Como é bom este tempo de contemplação. Moro num local privilegiado e quando abro a janela saio na varanda e todas as manhãs, eu olho para as árvores e um jardim maravilhoso. Ouço o cantar dos pássaros e vejo com atenção o movimento das árvores ao meu redor.
O fato é que estou simplesmente ali, sem saber sua duração desta contemplação. Às vezes, passo apenas um momento, no qual tenho a sensação de que não existe mais tempo, uma vez que adquire outra qualidade e dissolve-se na eternidade. Mas, às vezes passo mais de uma hora ali num tempo de contemplação. Na verdade, só paro porque tenho que cumprir a agenda de trabalho.
O que é contemplar?
É ir à profundidade de tudo, onde o nosso olhar atravessa, não vemos somente algo determinado. A contemplação é o momento em que enxergamos até a profundeza de nossa alma. Contemplação é oração sem palavras, sem imagens e sem pensamentos. O nosso pensar se opera no tempo, ao passo que palavras precisam de tempo. Contemplação é a experiência de que tudo é um e que eu sou um com Deus, o qual está além do tempo (Evagrius Ponticus).
O monge Agostinho também refletiu sobre a experiência da eternidade na oração e na contemplação. Para ele, o tempo é sofrimento, e seu desejo é se tornar partícipe do divino, que está além do tempo. Agostinho deseja constância e firmeza em meio à instabilidade do mundo. Em um comentário sobre o evangelho joanino, ele descreve de modo impressionante o caráter instável e inseguro do tempo:

“Neste mundo, porém, os dias rodam e rodam; uns vão, outros vêm, nenhum fica. Enquanto falamos, também os momentos se empurram uns aos outros; nenhuma sílaba pode esperar até outra soar. Enquanto estamos falando, ficamos um pouco mais velhos, e, sem dúvida, sou mais velho agora do que hoje de manhã. Assim nada fica parado, nada está firme no tempo. Por isso, devemos amar aquele que cria os momentos, para que sejamos livres do tempo e confirmados na eternidade, onde não mais existirá a variabilidade do tempo”.

Para ele, monge Agostinho, a oração é o lugar onde superamos o tempo e nos encontramos com Deus, que está além do tempo. Orar significa não formular muitas palavras, mas entrar em contato com o desejo que mora em nosso coração. E o desejo de estar com o Deus eterno. Nesse desejo, superamos o mundo; nele, o vestígio do Eterno está gravado em nosso coração.
Contemplação nos leva a ter os nossos olhos fitos, concentrados em Deus. E este ato é algo que precisa fazer parte da nossa espiritualidade!
Tenhamos os nossos olhos fitos, concentrados em Deus por meio deste elemento tão singular e relevante em nossa vida, a contemplação.
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Alcindo Almeida - membro da equipe pastoral da IP Lapa.

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