SUA ALTEZA, O MENDIGO. XXV


Sua Alteza é aristocrata no Reino dos céus, embora seja um mendigo aqui na terra. É uma pessoa nobre lá, mas é pobre cá. A sua carência não significa falta de posse, pois muitos são bons mordomos da graça gerindo muitos bens, todavia, nenhum deles é proprietário de coisa alguma.
Estar na posse não nos constitui o proprietário. O mendigo tem uma posse passageira, já que sua vida tem tempo de validade. É bom notar ainda que o cosmo tenha dono e que todas as coisas pertençam ao titular da Escritura. No universo, só o Senhor é o dono. Nós somos apenas posseiros e gerentes dos bens alheios. Com nada viemos para o mundo e com nada o deixaremos.
Se não somos os donos, não podemos ficar com dor-de-cotovelo. O ciúme é um sentimento de medo diante da possibilidade de se perder o que tem. Quem nada tem, não tem ciúme de nada. Somente o dono egoísta poderá sofrer o dano com a subtração do seu bem, por isso o despojado jamais ficará enciumado com a probabilidade de sumirem com algo que seja seu. Sua Alteza, o Mendigo, não lida com o despeito, uma vez que não é dono de ninguém, nem de coisa alguma.
Uma pessoa só tem ciúme de outra, quando esta é transformada em propriedade particular daquela. A que quer ser dona tem medo de perder o seu domínio sobre o seu bem e a pessoa desejada deixa de ser um sujeito da relação, para se tornar num objeto de um monopólio possessivo.
Um mendigo ciumento é um absurdo, pois ninguém pode ter ciúme daquilo que não tem. Neste caso, o pobre de ambição é o nobre da realeza celestial. Ora, se o medo de perder o que tem faz do temeroso um vassalo das paixões mais baixas, quem não tem pânico com a perda, porque não tem nada a perder, acaba revestido com a titulação mais elevada da nobreza divina. Deste modo, o ciúme é um constrangido tributo que a mediocridade presta ao mérito da graça.
O Reino dos céus governa os homens aqui na terra com a antítese da superioridade. Quem quiser ser grande lá em cima, precisa viver como um pequenino aqui em baixo. Se nós não formos donos de nada aqui neste mundo dos sem terra, não viveremos com ciúme de ninguém, nem das coisas que administramos aqui como gerentes. Bendito seja Sua Alteza, o Mendigo, legítimo mordomo-mor do Senhor dos senhores.
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Glenio Paranaguá – mendigo-padrão.

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