SUA ALTEZA, O MENDIGO. XXVIII


O mendigo assentado no seu trono, em pleno meio fio, esperava, pacientemente, a esmola da graça, que se renova a cada manhã. Neste instante passa pela rua apertada da amizade um carroceiro ignorante, mas metido a ladino, trajando uma fatiota ensebada, parecida com as vestes ultrapassadas de Napoleão Bonaparte. É um esnobe de estirpe rasteira, bronco acintoso e guia dos asnos. Ele grita para o mendigo: – vá trabalhar seu vadio! Deixa de ser inerte! Mexa-se inválido!
Sua Alteza, o mendigo, olha para aquele tipo sentado no banco da carroça de rodas dentadas, tocando um jumento, seu colega de escola, que puxa aquela geringonça às chibatadas, e pensa: – se sou inválido, como posso ser operacional? De fato sou improdutivo, mas não sou grosseiro com o meu próximo. Apedrejar os outros é insanidade. Prefiro ser frágil a ser ferino...
Alguém já disse com muita sabedoria; “duas coisas fazem muito mal ao coração: subir as escadas correndo em passos largos e criticar as pessoas por andarem a passos curtos”. A censura é um expediente próprio de gente censurável. Normalmente o mais crítico é o sujeito mais criticável.
Um velho mendigo dos tempos antigos disse algo notável em certa feita: “o desejo de desgraçar os outros jamais teve origem na graça de Deus”. Assim como a noite é o resultado da ausência do sol, anelar a desgraça dos outros é a falta da graça em Cristo. E lembre-se: sempre que você estiver atirando lama em alguém, estará perdendo terreno do seu lado. O barro que você joga no lado do vizinho é menos terra que fica no seu quintal.
Apagar a vela do outro não aumentará o brilho da sua, mas todos irão ver que é você a única pessoa que pretende fulgurar em cena. Sua Alteza sabe que não vale à pena entrar na briga com o carroceiro da roda dentada. Ele reconhece que não há maneira mais rápida de fazer com que suas palavras sejam questionadas do que tentar diminuir o valor alheio. Apesar de ser mendigo, Sua Alteza é nobre, percebendo que o melhor lugar para se criticar alguém é em frente do seu espelho.
Fica aqui uma sugestão valiosa de A. B. Simpson, um mendigo sábio, que sabia o que dizia. “Preferiria brincar com relâmpagos ou segurar em fios de alta tensão com sua corrente faiscante a pronunciar uma palavra precipitada contra qualquer servo de Cristo”. Além do que, digo eu, apedrejar um mendigo é trabalho inútil. Não gaste a sua energia julgando ou criticando aquele mendigo que Cristo já justificou.

Glenio Paranaguá – mendigo-padrão.

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