Tempo de reavaliar a caminhada

A teologia da missão integral foi anunciada e celebrada em Cape Town 2010.

Participar do III Congresso de Evangelização Mundial em Cidade do Cabo (África do Sul) era para mim uma espécie de “sonho de seminarista”. Construí minha jornada teológica a partir dos textos e ideias lançadas na primeira edição do evento, em Lausanne, na Suíça, em 1974. Ao iniciar meu primeiro ministério pastoral, em 1987, todos os conceitos da missão integral – a ideia de levar o Evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens – envolviam minha mente e aqueciam meu coração. Pouco a pouco, tudo o que era teoria foi sendo transformado em realidade. Na época, eu pastoreava uma igreja local num populoso bairro na periferia da cidade de São Paulo. Ali passei oito anos de minha vida e fui testemunha ocular do que aconteceu quando uma comunidade local abraçou essa missão. Nasceram novas congregações onde o Evangelho era proclamado, bem como projetos de serviço à população mais carente onde o Reino de Deus era manifesto em atos de amor e compaixão. Minha convicção era, e continua sendo, de que a missão integral é o caminho para a construção de uma Igreja dinâmica e relevante no país.
Mas os anos 90 foram cruéis para o movimento da missão integral no contexto brasileiro. Líderes que eram ícones do movimento se perderam; instituições que mobilizavam iniciativas paraeclesiásticas sucumbiram e grupos de homens e mulheres que caminhavam juntos, gradativamente, se desarticularam. Paralelamente a isso, surgiu no cenário nacional um tsunami chamado movimento neopentecostal. Seu crescimento numérico, seu impacto (negativo) e sua visibilidade na mídia foram devastadores. Com tudo isso, houve uma silenciosa dispersão entre aqueles que um dia sonharam com uma Igreja brasileira, altamente comprometida com o Evangelho e relevante para com a cultura. De movimento articulado, tornamo-nos indíviduos com alguns vínculos informais e relacionamentos interpessoais.
Assim, o III Congresso de Evangelização Mundial, realizado em outubro passado, aconteceu em um momento de grande desarticulação do movimento de missão integral no Brasil. Isso ficou evidente em vários momentos do processo – talvez, até mesmo por isso eu tenha sido selecionado como participante. Depois de oito dias de conferência, na companhia de outros 4 mil pastores, líderes cristãos, teólogos e atores da Igreja global, saí da África do Sul com algumas impressões. A primeira, de que os latinoamericanos, brasileiros inclusive, foram postos à margem. Em Cape Town 2010, foi nítida a falta de contribuição da Igreja na região para a construção da agenda e do conteúdo da conferência. Ficou evidente o equilíbrio intencional entre preletores asiáticos, africanos, europeus e norteamericanos. No entanto, os latinoamericanos não foram inseridos nessa proposta, tendo ficado na periferia da conferência. O preconceito e o descaso daqueles que organizaram o evento podem ser explicações. Por outro lado, ficou evidente a falta de articulação e mobilização por parte das igrejas latinoamericanas.
Mas é preciso reconhecer que o III Congresso do Movimento de Lausanne também surpreendeu positivamente. O testemunho daqueles que são desprovidos dos recursos que temos no Brasil e que estão inseridos num contexto de grande risco e perseguição sensibilizou a todos que estivemos ali, levando muitos às lágrimas. O que homens e mulheres, como discípulos de Jesus, estão fazendo sem recursos e liberdade, deve nos mover a repensar nossa espiritualidade light e tão pouco engajada na transformação de vidas e da sociedade. E, se não houve discursos arrebatadores dos grandes líderes cristãos presentes – o formato do evento privilegiou depoimentos, conversas à volta de mesas e exposições multimídia –, os testemunhos de gente simples e anônima, mas engajada na missão integral da Igreja, foram o destaque. Logo, a teologia que embasa esse movimento não foi refletida e elaborada, mas anunciada e celebrada, enfatizando a salvação somente em Jesus e promovendo atos de amor e compaixão pelos menos favorecidos em suas culturas.
Assim, deixei Cidade do Cabo com o sentimento de que precisamos fazer melhor uso dos recursos e da liberdade de que desfrutamos em nosso país. Além disso, precisamos abrir nossos olhos, ganhar consciência e nos mover na direção daqueles irmãos e irmãs em Cristo que sofrem pela fé cristã em muitos lugares no mundo. Por último, precisamos orar para que Deus sopre sobre a Igreja brasileira com um espírito de maior unidade, cooperação e mobilização em torno da missão.

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Ricardo Agreste da Silva: Plantador e pastor da Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera. Formado em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul e Filosofia pela FAI-SP. Mestre em Teologia com especialização em Missões Urbanas pelo Calvin Theological Seminary. Membro da diretoria do Projeto Timóteo e do Centro de Treinamento para Plantadores de Igreja. Casado com Sônia, com quem tem três filhos: Luiza, Levi e Ligia.

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