Entre heróis e amigos

Robinson Cavalcanti influenciou grandemente minha vida e minha formação

Despertei naquela segunda-feira no meio da madrugada. Liguei o computador e resolvi checar os e-mails. Fui então surpreendido com a notícia enviada por um amigo: o bispo anglicano Robinson Cavalcanti havia morrido na noite anterior, e de forma brutal. Passei o dia todo tentando cumprir minha agenda e sendo tomado por profundos momentos de reflexão. Lembrei-me de meu último encontro com Robinson, em novembro do ano passado. Ouvindo-o falar a um grupo de jovens pastores e conversando com ele durante o almoço naquele dia, percebi algo interessante em suas palavras: nunca havia visto e ouvido Robinson Cavalcanti tão pastoral como naquele momento. Talvez a percepção tenha sido decorrente do que muitos chamam de tempo de convergência.
Ao longo da vida, na medida em que vivemos as mais variadas experiências, tendemos a nos conhecer melhor e a perceber o mundo com mais sabedoria. A partir daí, passamos a fazer menos, com mais profundidade. Percebermos que nem tudo tem o valor que imaginávamos ter na juventude; fazemos, então, opções, e concentramo-nos no que de fato é imprescindível.
Robinson Cavalcanti faz parte de um grupo de pessoas que influenciaram grandemente minha vida e minha formação. Ao longo dos anos 1980 e primeira metade dos 90, muitas vezes estive aos pés deste grupo que falava nos congressos, conferências e encontros de reflexão teológica da época. Eu devorava cada palavra, tomava nota de tudo o que podia, buscava a possibilidade de um encontro pessoal com alguns deles e voltava para minha comunidade local cheio de novas ideias e intenções. Com eles, desenvolvi minha filosofia de ministério, abracei a teologia da missão integral e aprendi acerca da centralidade do Evangelho nesta missão. Foi com aquele grupo que percebi que “crer é também pensar”, mas não necessariamente  de forma árida e irreverente. 
Ali estavam meus heróis! Aqueles homens de Deus, com seu exemplo, desa¬fiaram-me a buscar não apenas carisma, mas também caráter. Passei então a sonhar com o Reino de Deus ganhando visibilidade na sociedade e na cultura brasileira. Com o passar dos anos, aqueles que eu contem¬plava à distância se tornaram amigos de caminhada. Tive o privilégio de conhecer de perto muitos daqueles a quem admirava de longe. Descobri, então, que não eram imunes a falhas, imperfeições, crises, dúvidas e lutas pessoais. Suas vidas eram marcadas por tropeços e dificuldades – tudo muito parecido com a minha própria jornada.
No entanto, aquele grupo de heróis-amigos, gradativamente, passou a se dissipar. Diante de tropeços e equívocos na vida, nem todos reconheceram e nomearam os mesmos como pecados. Antes, passaram a construir teologias que integrassem seus erros como virtudes e justificassem suas posturas como culpa daqueles que os seguiam. Houve também quem deixasse as demandas do mercado pautar suas reflexões e opiniões, fazendo da popularidade seu fim maior. Mas este grupo também passou a se dividir devido à fascinação gerada pela intelectualidade racionalista e árida da academia. Os que foram envolvidos por tal ambiente passaram, pouco a pouco, a chamar seus antigos amigos de ingênuos e as propostas por eles defendidas de visões desprovidas de profundidade e racionalidade.
Assim, o que era simples se tornou complexo; o que era óbvio se tornou obscuro; e o que era princípio de vida se tornou apenas opção pessoal. Porém, Robinson Cavalcanti sobreviveu àquela dissipação gradativa de meu grupo de heróis-amigos. Sua história possuía erros e equívocos, os quais ele mesmo chamava claramente de pecados perdoados por Deus pelo sangue derramado na cruz. Além disso, apesar de sua reconhecida intelectualidade, em seus discursos o bispo sempre integrava a importância das Escrituras como fonte de orientação, da oração como fonte de renovação e do Evangelho como fonte de salvação.
Apesar de entristecer-me grandemente pela partida de Robinson justamente em um invejável momento de maturidade pastoral, sou grato a Deus porque ele mantém alguns de meus heróis-amigos firmes na mesma corrida. Eles ainda me são fonte de referência para a vida, teologia e missão. Eles contemplaram o fim da corrida do Robinson, mas continuam conscientes de que a jornada continua para eles – e me convidam para participar da mesma.
Refletindo sobre esta analogia, fui levado a me lembrar de uma frase dita a mim por um pastor bem experiente e de idade avançada, ainda no inicio de meu ministério: “Meu filho, tão importante quanto começar bem, é terminar bem”.

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Reflexão de Ricardo Agreste na Revista Cristianismo hoje

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