segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Encontrando espaço

Meu primeiro encontro com C. S. Lewis se deu através de sua trilogia espacial. Embora não seja sua obra principal, ela teve sobre mim um impacto determinante. Ele tornou tão verossímil o sobrenatural que eu não tinha como não perguntar. E se aquilo fosse realmente verdade? E se Deus e a vida além e as forças sobrenaturais realmente estiveram em ação através das cortinas deste planeta e da minha vida?
Eu estava na faculdade no fi nal da década de 1960, poucos anos depois da morte de Lewis. Pedi outros livros dele em sebos da Inglaterra, uma vez que muitos não tinham atravessado o Atlântico. Travei com eles um debate como se fosse um adversário e, relutantemente cedi, como aconteceu com Lewis, choramingando pelo caminho do reino de Deus.
Desde então, Lewis tem sido um companheiro constante, uma espécie de mentor invisível que se assenta ao meu lado, desafi ando-me a melhorar meu estilo, meu pensamento e minha visão.
Lewis me ensinou um estilo de abordagem que tenho tentado seguir em meus próprios escritos. Para citar William James, “na esfera metafísica e religiosa, as razões articuladas nos são essenciais quando nossos sentimentos desarticulados acerca da realidade já estão dirigidos em favor das mesmas conclusões”. Em outras palavras, raramente aceitamos um argumento lógico a menos que se encaixe num sentido intuitivo de realidade. O desafio de um escritor é alimentar este senso intuitivo, como Lewis fez pra mim com sua trilogia especial antes de me encontrar com sua apologética. Lewis converteu-se ao Cristianismo somente depois de sentir que correspondia aos seus pensamentos mais profundos.
Sua formação no ateísmo e na dúvida deu a Lewis uma duradoura compreensão e compaixão pelos leitores que não aceitavam suas palavras. Ele se envolveu num cabo de guerra com Deus, até descobrir que o Deus da outra ponta da corda era inteiramente diferente do que ele imaginava. Do mesmo modo, eu precisava superar uma imagem de um Deus desfigurado por uma igreja rancorosa e legalística. Lutei duro contra um inimigo cósmico até descobrir um Deus de graça e misericórdia.
“Minha idéia de Deus não é uma idéia divina”, escreveu Lewis em “Uma dor observada”. Ela me tem incomodado ao longo do tempo. Deus mesmo me incomoda. Ele é um grande iconoclasta. A Encarnação é exemplo supremo; deixa em ruínas todas as idéias anteriores sobre o Messias”. O livro, concebido quando sua esposa estava morrendo de uma morte cruel por causa de um câncer ósseo, perturba alguns leitores. Lewis tinha tratado fi losofi camente da teodicéia em “O problema da dor”, mas derrete os argumentos enquanto acompanha o processo de devastação corporal da mulher que ele amava. Penso que os dois livros devem ser lidos em conjunto, pois a combinação das últimas respostas com a agonia existencial refl ete o padrão bíblico. A Cruz salvou o mundo, mas, ah, a que custo.
Lewis via o mundo como um lugar digno de ser salvo. Diferentemente dos monges da Idade Média e dos legalistas dos tempos modernos, não via necessidade de abandonar e negar todos os prazeres. Ele gostava de bebida forte, de uma baforada de cachimbo, de uma reunião com os amigos, de uma ópera de Wagner e de uma caminhada pelos campos de Oxford. Os prazeres da vida são bons, embora não bons o bastante; eles são “o perfume de uma fl or que ainda não descobrimos, o eco de uma música que ainda não ouvimos, notícias de um país que ainda não visitamos”.
Encontrei em Lewis aquele equilíbrio raro e precário de abraçar o mundo sem o idolatrar. Por todos os seus defeitos, este planeta porta marcar do desenho original, traços de Beleza e Alegria que lembram e antecipam o propósito de Deus.
Diferentemente dos autores modernos, Lewis me ensinou a antecipar os céus: “Somos criaturas tíbias, loucas por bebida, sexo e ambição, embora a alegria infi nita nos seja oferecida, como uma criança ignorante que deseja prosseguir fazendo tortas de lama numa favela porque não pode imaginar o que pode significar a oferta de um feriado na praia”.

________________
Philip Yancey - Tradução de Israel Belo de Azevedo

Nenhum comentário:

Postar um comentário