quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A era da Igreja

Nietzsche não é apenas um niilista, pois propõe uma filosofia experimental, para a qual, a verdade não é concebida como descoberta, mas como criação, experimento, perspectiva, e, enquanto tal, indissociável do poder.”Thiago Mota Fontenele e Silva, “Perspectivismo e Agonismo: Nietzsche sobre Verdade e Poder”.
“Alguns comentadores permaneceram hostis à ideia de uma teoria marxista da justiça, argumentando que Marx via a “justiça” como pouco mais do que uma construção ideológica burguesa projetada para justificar a exploração com referência à reciprocidade no salário contratual. ”Wikipédia“Na dialética marxista, a burguesia seria a tese -- e o proletariado, sua antítese.
A síntese seria a superação da sociedade de classes por uma sem classes: o comunismo. As crises do capitalismo, então, decorreriam dos conflitos entre burguesia e proletariado, e seriam o prenúncio de uma superação dialética da economia política. Ao assumirem seu papel histórico e dialético, os trabalhadores instituiriam, no lugar do sistema capitalista, a ditadura do proletariado, que seria um Estado provisório a ser superado pelo comunismo.”
José Renato Salatiel, revista “Pedagogia e Comunicação”“Com a derrocada do socialismo, Fukuyama conclui que a democracia liberal ocidental firmou-se como a solução final do governo humano, significando, nesse sentido, o “fim da história” da humanidade.”Luiz Marcos Gomes, “O ‘Fim da História’ ou A Ideologia Imperialista da ‘Nova Ordem Mundial’”“Os olhos são como uma luz para o corpo: quando os olhos de vocês são bons, todo o seu corpo fica cheio de luz. Porém, se os seus olhos forem maus, o seu corpo ficará cheio de escuridão. Assim, se a luz que está em você virar escuridão, como será terrível essa escuridão!” Mateus 6.22-23.
O historiador Eric Hobsbawm defende que um século pode ter mais ou menos que cem anos, dependendo dos eventos que no período ocorram e que demarquem uma mudança de fase ou de era na história. Sendo que o que se aplica ao século, se aplica a qualquer evento, é possível dizer que a Segunda Guerra Mundial, que oficialmente termina em 1945, de fato acaba em 1989, com a queda do muro de Berlim, que anuncia o fim do embate entre o capitalismo, representado pela OTAN, e o socialismo, representado pelo Pacto de Varsóvia, com a vitória do capitalismo. Foi esse o fato que levou o filósofo Francis Fukuyama a propagar a tese do “fim da história”, justamente por não haver mais embate entre as ideologias.
O fim dessa luta entre as ideologias contrastantes deixou a sociedade sem olhos. Quando da luta, as sociedades se observavam e a crítica era constante, exigindo de cada uma não só a defesa de seu ponto de vista; a presença do contraditório acabava também por forçar aprimoramentos, no sentido de sustentar a suficiência do sistema como solução para a humanidade em sua busca por felicidade.
Dessa forma, em vez de dizer que a história acabou, seria mais preciso dizer que a sociedade humana perdeu a meta perspectiva e assim a capacidade de visão, partindo do pressuposto de que ter somente a visão particular de si significa não ter, de si, visão alguma. A sociedade foi acometida de cegueira.
Sempre se pode argumentar que a queda dos estados socialistas, por excelência, não representa o fim do sonho socialista e que, portanto, a crítica e o contraditório estão mantidos. Porém, as duas ideologias tinham algo em comum: a crença de que tudo se tratava de uma relação de poder. Quem conquistasse o poder ganharia o direito de normatizar o direito, a justiça, a verdade, a ética e a moral. Desse modo, qualquer reação dos derrotados apenas reforçaria a posição do vencedor, que passaria a exigir do vencido o reconhecimento do lugar que a história, agora, lhe reserva: lugar nenhum.
Como enfrentar essa força hegemônica? Aqui entra a Igreja, a teologia. A Igreja jamais aceitou a lógica da relação de poder, porque a teologia argumenta que o Criador é quem estabelece o conteúdo das palavras ‘direito’, ‘justiça’, ‘verdade’, ‘paz’, ‘ética’ e ‘moral’. Tais conceitos não são fruto de construção, mas de revelação. Assim, a teologia irrompe como a propugnadora da ética e do direito, e a Igreja força a retomada da noção de história.
O contraditório e a crítica continuam presentes, porém não mais como contraponto ideológico, e sim como compromisso profético, a partir do grande observador -- como diria Berkeley -- que, com sua observação, além de garantir a existência, lhe dá conteúdo. Diante da teologia está o desafio de passar de momento segundo para a emuladora da mudança.
O fim do embate ideológico recolocou a Igreja e a teologia na ribalta, já que só a partir dessa lógica judaico-cristã é possível retomar o debate sobre o direito, a justiça, a ética, a paz e a moral. Por sua teologia, a igreja hoje voltou a ser os olhos da sociedade. É a única força capaz de se contrapor à lógica capitalista e de forçar a sua humanização -- ou capitulação -- frente à lógica da solidariedade. Cabe-nos que esses olhos não sejam trevas, mas luz de libertação.
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• Ariovaldo Ramos é pastor na Comunidade Cristã Reformada e na Igreja Batista de Água Branca, ambas em São Paulo.

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