Tamar filha de Davi: A princesa que foi humilhada - (II Samuel 13.1-22)


Tamar significa palmeira. Ela era uma moça que pertencia a realeza e, além disso, era uma bela jovem rica e filha preciosa do rei Davi. Tamar por ser muito bonita e atraente deve ter mexido com o coração de seu meio irmão Amnom. Esse rapaz começou a alimentar seus desejos impuros pela própria irmã (II Samuel 13.1-2).
Esse processo que culminaria num estupro, tem numa certa medida uma relação com a tragédia que começou quando Davi adulterou com a mulher do seu fiel soldado Urias. Com Bate-Seba Davi pecou contra Deus e sua casa e reinado começaram a sofrer todas as consequências deste pecado.
Interessante que ao ler o texto percebemos que Amnom nutre uma paixão pela sua própria irmã que gera uma angustia nele até adoecer, porque Tamar já tem a idade para se casar e com certeza era guardada sobre grande vigilância. Talvez para ter um casamento que fortalecesse as alianças de seu pai como rei.
O problema é que Davi não sabia qual o perigo que cercava sua filha. O perigo estava no meio da sua família. Claro que por ser uma princesa não era fácil para algum homem cortejá-la e no caso de Amnom, era complicado para ele se aproximar dela. Só que o texto sagrado nos informa que ele tinha um amigo chamado Jonadabe que era muito sagaz e perverso e que o aconselhou a cometer o incesto, ou seja, ter relação com sua irmã para então ter a satisfação do seu desejo (II Samuel 13.1-5). Ele disse: Deita-te na tua cama, e finge-te doente; e, quando teu pai te vier visitar, dize-lhe: Peço-te que minha irmã Tamar venha, e me dê de comer pão, e prepare a comida diante dos meus olhos, para que eu a veja e coma da sua mão (II Samuel 13.5).
A astúcia dele deu certo e Davi caiu direitinho na fala de seu filho. Percebemos que no coração do amigo de Amnom só havia a maldade, a inveja e a destruição. Quando Davi foi visitá-lo, ele pediu para mandar Tamar preparar comida e lhe dar pão. Davi não suspeitou da maldade do filho e do perigo que cercava sua filha. Fez como lhe pediu e foi assim que começou o triste drama da bela princesa Tamar. O texto diz: E chegando-lhos, para que comesse, pegou dela, e disse-lhe: Vem, deita-te comigo, minha irmã. Porém ela lhe disse: Não, meu irmão, não me forces, porque não se faz assim em Israel; não faças tal loucura (II Samuel 13.11-12).
Só que assim mesmo ela foi forçada, violentada pelo próprio irmão. E o pior ainda aconteceu: Depois Amnom sentiu grande aversão por ela, pois maior era o ódio que sentiu por ela do que o amor com que a amara. E disse-lhe Amnom: Levanta-te, e vai-te
(
II Samuel 13.15). Ela ainda disse: Não, meu irmão, porque maior é esta injuria, lançando-me fora, do que a outra que me fizeste. Ele não a quis ouvir. Chamou seu moço que o servia e disse: Deita fora esta e fecha a porta após ela.
O que aprendemos com esse texto?

1.            Cuidado com o coração humano, ele é mal:

A Bíblia diz no livro de Jeremias: Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?
Vejam que o mesmo sentimento que enganou Davi em relação a Bate-Seba, veio novamente sobre sua família. Que sentimento é esse? É do coração mal de todo ser humano. O coração que maquina a maldade em relação ao próximo.
Vejam o tamanho da maldade desse rapaz em relação a sua própria irmã. Ele tem o processo de satisfação do desejo, consuma o ato através de uma mentira e ainda humilha terrivelmente sua irmã.
Precisamos ter cuidado com nosso coração, com as loucuras que podemos cometer para com as pessoas. Quando olhamos para a família de Davi, percebemos o que a maldade fez. Ela destruiu a história de uma moça linda, de uma moça que tinha pureza e teve de sofrer perdas terríveis no seu coração.

2.            Choremos a dor das perdas sem azedar o coração:

O texto diz o que aconteceu com Tamar: Então Tamar tomou cinza sobre a sua cabeça, e a roupa de muitas cores que trazia rasgou; e pôs as mãos sobre a cabeça, e foi andando e clamando.
Tamar não se calou diante do absurdo, da violência que sofreu, não escondeu de ninguém, que foi abusada, que ela foi violentada. Tamar colocou cinzas na cabeça, rasgou seu manto real que era um símbolo de ser uma donzela e saiu pelas ruas clamando socorro.
Conhecemos bem a história que Absalão se vingou do ato horrível de Amnom. Ele o matou para reduzir o sofrimento que o próprio irmão fez a irmã passar. Choremos a nossa dor, choremos nossas perdas no coração. E gritemos também as injustiças que vemos na vida. Choremos a violência que fizeram conosco durante a jornada da vida.
Gosto do que Henri Nouwen diz sobre a questão do sofrimento na nossa vida. Ele diz: O sofrimento nos convida a depositar nossas feridas em mãos maiores. Em Cristo, vemos Deus sofrendo em nós. Ele nos chama para compartilhar os sofrimentos de amor de Deus por um mundo ferido[1].
A nossa dor é vista por Deus em todos os momentos. Sofremos, somos angustiados pelos problemas da vida, a vida reserva momentos de profunda dor e perdas profundas. No meio delas, precisamos chorar sem azedar o coração e a alma. O fato é que não temos tantas informações sobre o que aconteceu depois com Tamar, mas sabemos que ela chora sua dor, chora seu sofrimento e humilhação no coração.
Na dor aprendamos a depositar nossas feridas em mãos maiores, essas mãos são do Eterno Deus, que sabe de tudo. Sabe daquele abuso que algumas mulheres sofreram. Sabe das tempestades na vida. Sabe das humilhações diante dos pais, dos irmãos e de pessoas que passaram na vida.
Como precisamos enfrentar as dores da vida sem medo de resgatar o nosso passado. Nossas perdas nos lembram que não estamos sozinhos, Jesus está conosco e nos toma pela sua mão, ele nos faz dançar novamente no meio das dores e nos coloca em pé na vida. Como diz o texto do Salmo 30.11: Tornaste o meu pranto em folguedo; desataste o meu pano de saco, e me cingiste de alegria.
Termino essa reflexão citando novamente Henri Nouwen: Aprendamos a olhar nossas perdas de frente, e não fugir delas. Ao aceitar sem repulsa as dores da vida, poderemos encontrar o inesperado. Ao convidar Deus para participar de nossas dificuldades, fundamentaremos nossa vida – até mesmo seus momentos tristes – em alegria e esperança. Lamentar significa enfrentar o que nos fere na presença do Pai que pode nos curar.
Que a graça do Eterno Deus seja sobre nós!

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Pr. Alcindo Almeida – membro da equipe pastoral da IP Alphaville.



[1] NOUWEN, Henri. Transforma meu pranto em dança. São Paulo, Editora Textus, 2002, p.10.

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