Deus escolheu o menino do campo - (I Samuel 16.11)

Quando olhamos para a escolha do novo rei de Israel pela instrumentalidade de Samuel, percebemos que Davi foi o último a ser visto. Ele entra na história anonimamente, referido sem a menor importância pelo pai como apenas o caçula. Seu pai diz: Ainda tenho o caçula, mas ele está no campo cuidando das ovelhas (I Sm. 16.11). Quem é o caçula de oito irmãos, provavelmente, nunca será lembrado senão como sendo o mais moço.
Com certeza Davi era alguém que não seria um forte candidato para uma posição de prestígio. A opinião condescendente de seu pai sobre ele (compartilhada presumivelmente por seus irmãos) é confirmada por sua ocupação: cuidando de ovelhas. A menos importante de todas as tarefas numa fazenda, aquela em que mal poderia causar qualquer prejuízo. Correspondente, no nosso sistema econômico atual, a levar o cachorro para passear ou empacotar as compras dos fregueses num supermercado.
Como Davi estivesse ausente, e a maior parte do tempo ignorado enquanto apascentava as ovelhas, ninguém tinha pensado em chamá-lo para estar em Belém naquele dia. No entanto, Davi foi o escolhido. Escolhido e ungido. Escolhido não por algo que alguém tivesse visto nele. Nem seu pai, nem seus irmãos, nem mesmo Samuel, mas por causa do que Deus nele viu. E, então, escolhido e ungido por Deus, mediante Samuel, para viver na glória de Deus (PETERSON, Eugene. Transpondo muralhas – Espiritualidade para o dia-a-dia dos cristãos. Rio de Janeiro: Habacuc, 2004, p.35). Esse capítulo do livro de Eugene leva-me a algumas reflexões:
 
1. Não menosprezemos as pessoas que Deus escolhe para a missão:
 
Já vi pessoas ridicularizando outros porque não são qualificados, porque não sabem tais e tais procedimentos. A vida de Davi é o ensino sagrado que Deus usa pessoas sem nenhuma fama, ele usa pessoas no anonimato para a glória dele.
 
2. Lembremos que Deus vê o coração e não o exterior:
 
Como medimos e avaliamos as pessoas pela aparência. Com essa atitude chegamos a humilhar pessoas, menosprezá-las e até ridicularizá-las.
 
3. Deus nos escolhe não pelo que fazemos, mas pelo que recebemos: graça:
 
A sua graça é a base para nos escolher para sua missão no Reino. Sua graça que nos traz identidade. Davi não só foi escolhido, como se tronou o maior rei que Israel já teve. Alguém forte, destemido, sério e extremamente relacional.
 
4. Somos agraciados por Deus para sermos vasos:
 
Ele escolheu o menino do campo mesmo seu pai se esquecendo de apresentá-lo a Samuel; e, na verdade, talvez ele nem mesmo o tivesse notado. Para seus irmãos, era um joão-ninguém.
 
5. Davi é um escolhido de Deus:
 
Como pastor de ovelhas foi impactante vê-lo como representante da presença atuante de Deus na vida e na história humana, nos transmite o sentido de inclusão de homens e mulheres comuns, gente simples, aqueles que não se destacam ao olhar dos que os cercam, aqueles que não possuem proeminente posição social nem estirpe nobre.
 
6. Deus é bom demais em escolher gente simples:
 
Deus usa gente pecadora para ser instrumento da sua graça em vários momentos da vida.

7. Deus conta com gente inexperiente para sua causa:
 
Interessante que nossa cultura coloca especialistas e profissionais numa consideração totalmente acima das proporções reais.Como decorrência, considera o leigo quase um idiota, competente apenas se assessorado ou apoiado por um especialista no assunto. As consequências não são nada estimulantes. Entregamos os cuidados do nosso corpo para especialistas da área médica. Resultado? A piora constante da saúde individual. Entregamos a responsabilidade de nossa educação a especialistas da área de ensino. Resultado? Uma população incapaz de pensar por si só, desconhecedora de muito da literatura e da história mundiais, indefesa às manipulações dos políticos e marqueteiros. Entregamos a responsabilidade do desenvolvimento e restabelecimento das relações interpessoais aos especialistas em psicologia. Resultado? Experiências de intimidade o tempo todo em baixa, saúde emocional preocupantemente abalada, amizades raras, casamentos e vida familiar em ruínas. Entregamos a responsabilidade pela nossa fé aos especialistas em religião. Resultado? Uma identidade pública cristã dominada por rótulos do tipo adesivo de pára-brisas e por celebridades televisivas, que estimulam nos indivíduos um apetite insaciável de assistirem a performances religiosas e uma ânsia indiscriminada por comprar bugigangas religiosas.
 
8. Deus não se esquece de nós nunca:
 
O Deus que nos salvou está conosco. Interessante que durante a vida inteira de Davi, todos os que o cercavam reconheceram a direção, a graça e a misericórdia de Deus sendo-lhes ministradas mediante sua obra e sua existência. Davi é a prova viva de que Deus nunca nos abandona, mesmo que sejamos simples e os últimos da fila na vida humana.

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