sábado, 5 de abril de 2008

A ternura da vida é ser humilde de espírito


- Texto para reflexão: Jesus, pois, vendo as multidões, subiu ao monte; e, tendo se assentado, aproximaram-se os seus discípulos, e ele se pôs a ensiná-los, dizendo: Bem-aventurados os humildes (pobres) de espírito, porque deles é o Reino dos céus (Mateus 5.1- 3).

Vejam também a tradução do original hebraico: Em marcha, humilhados do sopro! Sim, deles é o Reino dos céus. Jesus se assenta para falar aos seus de quem é o Reino de Deus. Ele está num Monte e quando falamos em Monte dá a idéia de um lugar da revelação divina (MAGGIONI, vol. 1, 1990, p. 109). E lá neste Monte ele diz que o Reino é dos humildes de espírito. Estes são felizes, bem-aventurados na presença de Deus.
Olhando para a idéia no hebraico sobre sopro, surge uma pergunta: Quando é que o nosso sopro fica humilhado? É interessante avaliar a visão de sopro no entendimento judaico. A salvação para o judeu implica em respirar amplamente. Respiramos bem com o ar e o espaço que possuímos. Estamos todos ligados à fonte do nosso sopro que espiritualmente é Jesus Cristo. Mas, às vezes, em alguns momentos da vida nos falta o sopro para respirar. Aqueles que têm problemas de respiração no meio deste ar poluído entendem bem esta questão. Na vida espiritual é exatamente neste momento de dificuldade de termos o sopro que a bem-aventurança vem. Ela chega quando estamos sufocando e quando precisamos nos recolocar em marcha (LELOUP, 2004, p. 60).
Quando temos um nó na garganta?
Quando a cólera e a raiva tornam a nossa respiração ofegante ou curta?
Quando somos tomados pela dureza de coração respiramos mal. E transportando para a realidade espiritual no meio da dificuldade da respiração, de termos o sopro, Jesus nos convida para cultivarmos um caminho simples. Ele afirma: Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos céus.
Na perspectiva espiritual este sopro no meio da humilhação é um momento de saúde e este momento é onde podemos respirar amplamente por meio da ação do Senhor Jesus em nosso interior. Mas, diante destas realidades, o que é ser humilde (pobre) de espírito?
Ser humilde de espírito é se apresentar vazio na presença de Deus. Ser humilde de espírito é abdicar das atitudes orgulhosas da nossa auto-suficiência e reconhecer que somos devedores a Deus. Ser humilde de espírito é reconhecer que não conseguimos respirar sozinhos diante das humilhações e sofrimentos que passamos na vida.
Ser pobre de espírito é cultivar a humildade na presença do Pai. Na cultura judaica significa curvar-se em sentido de humilhação. É o oposto de se erguer com forma orgulhosa.
Ser pobre de espírito é acolher todas as coisas que recebemos da parte de Deus como um dom, um presente da graça e do cuidado dele (LELOUP, 2004, p. 62).
A pobreza de espírito aqui ensinada por Jesus é aquele que faz o nosso coração ter uma pureza e simplicidade com as quais acolhemos tudo o que a vida nos dá.
Olhando para a realidade deste texto ensinada por Jesus, podemos compreender porque tanta guerra, porque tanta violência na terra. Porque alguém tão ruim pega uma criança chamada Isabela com 5 anos de idade e a atira do 6º andar de um prédio. Falta a pobreza de espírito para compreender o respeito pelo próximo como criação de Deus Pai. Falta a humildade de espírito para não trabalharmos com a ganância de termos aquilo que é dos outros.
Jesus nos convida a nos tornar pobres de espírito no sentido de abrirmos mão de tudo o que sabemos. E é claro que não é negarmos aquilo que sabemos, mas é relativizar o nosso conhecimento para abraçarmos os outros que nos cercam e marcam a nossa vida.
Jesus deseja que sejamos pobres de espírito no fato de reconhecermos aos outros melhores do que nós. Paulo em Filipenses 2.1-4 nos mostra este caminho já ensinado pelo nosso Senhor Jesus. Ele afirma: Portanto, se há alguma exortação em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão do Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões, completai o meu gozo, para que tenhais o mesmo modo de pensar, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, pensando a mesma coisa; nada façais por contenda ou por vanglória, mas com humildade cada um considere os outros superiores a si mesmo; não olhe cada um somente para o que é seu, mas cada qual também para o que é dos outros.
O que é mais precioso para Jesus neste sermão?
É termos a consciência de cultivarmos um coração grato e humilde na presença dele. Termos uma mão que recebe e dá no Reino. Recebe graça e dá graça. Recebe amor e dá amor. Recebe perdão e perdoa. Recebe misericórdia e doa misericórdia para os outros.
Mesmo que houvesse muitos pobres por causa do sofrimento causado pelas autoridades romanas, a fala de Jesus quanto aos pobres de espírito é essencialmente espiritual.
A afirmação de Jesus é que estes humildes de espírito que são felizes e dos tais é o Reino de Deus. Então o Reino é para os aqueles que entendem no coração o desejo de Deus, que é nos curvarmos em direção ao chão (NOUWEN, 1999, p.185). Tocar no chão é olhar para baixo e o que olha para baixo lutando contra o orgulho, entende o que é ser humilde de espírito, entende o que significa levar a cruz se negando a si mesmo.
Nesta perspectiva Jesus não contempla um Reino de ostentação e de glória terrena para si mesmo e para os seus seguidores, mas um Reino de humildade e de entrega, daí a necessidade espiritual de sermos humildes de espírito neste Reino.
Como podemos ser humildes de espírito?

· Tendo humildade em reconhecer que precisamos melhorar o nosso relacionamento com Deus: pobreza de espírito é quando eu dependo de um relacionamento profundo com o Deus da aliança e percebo que não posso andar sozinho.

· Tendo submissão à autoridade da Escritura: não há coisa mais detestável em alguém que diz seguir a Cristo do que a arrogância, e nada é mais apropriado ou atrai mais do que a humildade. E um elemento essencial na humildade cristã é a disposição para ouvir e receber a Palavra de Deus (STOTT, 2005, p. 8 1).

· Tendo a humildade de reconhecer os outros como melhores do que nós: Paulo nos ensina sobre isto quando diz que devemos considerar o outro superior a nós mesmos. E o exemplo para esta atitude é Jesus Cristo de Nazaré.
Que Deus na sua infinita graça nos ajude a aprender o discipulado de sermos pobres de espírito!

Bibliografia:

LELOUP, Jean Yves. Livro das bem-aventuranças e do Pai nosso. Rio de Janeiro: Vozes, 2004.
MAGGIONI, Bruno. Comentário nos Evangelhos I. São Paulo: Loyola, vol. 1, 1990.
MANNING, Brennan. A sabedoria da ternura. Brasília: Palavra, 2007.
NOUWEN, Henri. O Caminho para o amanhecer. São Paulo: Paulinas, 1999.
STOTT, John. Ouça o Espírito, ouça o mundo. São Paulo: ABU, 2005.

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