O sofrimento como parte da missão

Então começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem sofresse muitas coisas (Marcos 8.31).
A primeira metade do Evangelho de Marcos aborda a questão da verdadeira identidade de Jesus. Pedro havia acabado de dar a cabal resposta a essa pergunta: “ele é o Cristo” (8.29). Porém, essa confissão perfeitamente ortodoxa, longe de ser um ponto de chegada, é um ponto de partida para um novo aprofundamento do significado do discipulado.
Jesus prediz sua morte. A certeza da incompreensão, rejeição e sofrimento fazia parte da consciência de Jesus. Porém, não é mera previsão (“vai acontecer”), nem tragédia (“infelizmente vai acontecer”) -- é compulsão (“é necessário que aconteça”). Esse sofrimento é parte integral de sua missão. A rejeição será completa; nenhum grupo respeitável da sociedade judaica o aprovará, nem os líderes políticos, nem os religiosos, nem os intelectuais. A profecia segue o roteiro de Isaías 52.13–53.12. O Filho do Homem, a figura gloriosa de Daniel 7 que recebe o domínio mundial, se funde com a figura pisada e humilhada do Servo Sofredor.
Porém, a ideia de um Messias sofredor, a mensagem da cruz, encontra o seu primeiro opositor entre os discípulos. Pedro “repreende” Jesus -- a mesma atitude que Jesus tinha com os demônios! Sua mentalidade básica é a mesma que posteriormente prevaleceu no islamismo: seria uma desonra para Deus se o tão ilustre personagem fizesse papel de derrotado. Pedro, o mesmo que acertara brilhantemente o teste de ortodoxia (“tu és o Messias”), agora é chamado de Satanás, pois nele há mecanismos psicológicos que se opõem à plena aceitação de um messias sofredor.
Sem dúvida, a forte reação de Jesus se deve ao fato de que as palavras de Pedro encontram “nele próprio” uma base de apoio psicológico, e por isso mesmo representam a recorrência da tentação do deserto. Evitar a cruz (Getsêmani), ser outro tipo de messias, foi a permanente e última tentação de Cristo. Contudo, ele sabe que é uma tentação; Pedro, não. Por isso, Pedro precisa de uma renovação de sua mentalidade (v. 33). “Pensar nas coisas de Deus e não dos homens” (cf. Cl 3.2, “pensar nas coisas lá do alto, não nas da terra”) não significa pensar em assuntos diferentes, mas pensar nos mesmos assuntos com outros olhos. Afinal, o problema de Pedro não é que não esteja pensando num assunto “espiritual” (o Messias), mas que ele pensa segundo critérios inadequados e espiritualmente prejudiciais. Um conceito triunfalista da fé cristã, apesar da ortodoxia de suas confissões, é uma mentalidade humana, “da terra”, que não penetrou o espírito de Cristo.
Uma frase recorrente nos Evangelhos é que o discípulo não é maior do que seu mestre. Em muitos contextos diferentes, Jesus nos lembra da normatividade das condições de sua vida. Podemos não passar pelas mesmas coisas que ele passou, mas não podemos exigir que não passemos. Jesus é um Messias sofredor e tem plena consciência disso; e nós somos discípulos “desse tipo de mestre”. Às vezes, uma atitude de reclamação se entrincheira em nós, não porque a nossa vida seja objetivamente pior do que a de todo o mundo, mas simplesmente porque não está totalmente livre de contratempos. Revelamos uma atitude de extrema fragilidade da personalidade, tornando-nos queixosos, desiludidos, espinhosos, incapazes de ver o outro lado.
Antes de engrossar o coro de crítica a Pedro pela sua incapacidade de internalizar a ideia de um Messias sofredor, é bom lembrarmos que, pelo menos, ele é franco. Reprova Jesus claramente e não tenta disfarçar seus verdadeiros sentimentos por trás de palavras piedosas. Dificilmente fazemos o mesmo. Nossa inveja, amargura e incapacidade de perdoar provêm de uma queixa inconfessa contra Deus, que reprovamos por não nos tratar como achamos que deveria. Dirigimos às pessoas as queixas que gostaríamos de dirigir a Deus.
Todo ressentimento é, no fundo, ressentimento contra Deus. Se estou ressentido é porque me considero realmente prejudicado; Deus falhou, foi incompetente ou indiferente em sua tarefa de me dar a cobertura de sua providência!
Quando o coração se me amargou [...] eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à tua presença. (Sl 73.21-22)

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• Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.

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