O gigante Golias e o coitadinho do Mefibosete

A história de Davi, o pastorzinho de ovelhas que virou rei de Israel, tem dois personagens curiosos em sua biografia. Um gigante, no prefácio, e um aleijadinho, na conclusão. Os dois tipos são simbólicos e significativos. O primeiro é a representação daquilo que promove a nossa vanglória. Escalar os píncaros elevados é um obstáculo quase intransponível para quem deseja a vida simples e anônima. É complicado assentar-se num trono e ainda gozar o prazer de descansar num tamborete à sombra da invisibilidade pública.
A história dos grandes feitos requer uma narrativa heróica. Quando Davi venceu o gigante Golias, tornou-se um monstro sagrado para o seu povo. Daí para frente ele veio a cultivar e cultuar muitos aplausos, uma vez que os heróis normalmente são convertidos em ídolos das multidões ávidas por referência.
Nesta hora aparecem as tietes como fungos tóxicos, envenenando os rivais e causando, através da louvação, um verdadeiro esporão de arraia no íntimo dos invejosos. O rei Saul foi vítima deste golpe ferino, quando as donzelas o compararam com aquele súdito pixote, aquele nanico; dando a Davi uma potência de dez vezes mais do que o rei. Foi aí que o seu reinado despencou morro a baixo.
O perigo do êxito é duplo: de um lado, a vaidade instigando a vanglória; do outro, a inveja instalando a sua perseguição e vingança astuta. O sucesso é uma sucessão de armadilhas ardilosas e sutis, por onde o orgulho financia a soberba, enquanto a inveja favorece a armação de uma arapuca para aprisionar o sujeito. De ambos os lados há conflitos gigantescos no íntimo da pessoa bem sucedida.
O meu gigante vanglorioso é um Drácula que suga o sangue na veia dos invejosos e ainda me deixa anêmico pela necessidade de reconhecimento da platéia. Se for admirado, acabo ficando pálido de tanto me admirar nesse espelho mágico, distante do sol da verdade. E, se não sou visto, sofro com a hemorragia nas minhas entranhas. Porém, há outro personagem tipológico que requer cuidados especiais. Davi foi genro do rei Saul, seu arquiinimigo invejoso, que o quis matar a todo custo. O rei o detestava, mas o seu cunhado, Jônatas, era o seu amigo preferido.
Davi e Jônatas, filho de Saul, se amavam no meio de um fogo cruzado da artilharia brutal dessa guerra nacionalista. A dinastia de Saul havia chegado a um beco sem saída. O fim da aristocracia de Benjamim foi quase ao extermínio total da família. Quando Davi assumiu o trono, apareceu um descendente de Saul, um serzinho manco nos escombros dos benjamitas. Era o pobre Mefibosete, um aleijadinho que havia caído do caminhão da mudança. Agora, no cenário da psique, pode brotar a autocomiseração como o outro lado da velha moeda do orgulho.
A doença da alma, via de regra, faz da bondade um negócio para compensar a culpa que por vezes esculpe uma chaga dolorosa do "Auto da Compadecida". Mefibosete significa: "exterminando o ídolo". Qual era o ídolo? Também, temos uma figura que tipifica a operação da graça aos miseráveis. Observem que ele é um deficiente indigno que foi convidado a tomar parte como príncipe, em lugar de honra, na mesa real. Mas a sua conduta não é totalmente ingênua.
A semana que vem eu vou considerar algumas estripulias desse meu gênero coitadinho. O orgulho camuflado de autocompadecimento é muito mais ameaçador do que desfilar na passarela destilando a arrogância às golfadas. Tenho muito mais receio do meu modelito esguio do que dessa tampa de poço do meu ego obeso. Até a próxima!
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Glenio Paranaguá

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