A práxis da fé


Estou lendo Convulsão protestante, o novo livro de Antônio Carlos Costa. O livro fala de muitos dos que acompanharam as criativas e contundentes manifestações contra a violência e a desigualdade social e em favor dos direitos humanos, em especial na cidade do Rio de Janeiro, cuja eloquência e impacto alcançam a mídia em todo o planeta. Ele não fazia ideia de que, por trás desse movimento, ele sofria uma guinada espetacular em termos de envolvimento com a sociedade.
Em Convulsão protestante, ele relata por que decidiu dar uma reviravolta na carreira ministerial e lançar-se na desconhecida e imprevisível jornada em favor da massa empobrecida deste país. Ele é muito articulado e atento aos textos bíblicos e confrontado por Deus, lendo as Escrituras percebeu a necessidade de compreender a sociedade e o desejo de vê-la mais justa e digna para todos em nosso país.
Por falar numa sociedade mais justa e digna para todos no país, olho para ela e choro, choro pelo povo carente dessa nação, que vive para ganhar apenas o pão, e explorado por não ter acesso às oportunidades melhores. Choro pelos meninos e meninas dessa terra que não têm perspectivas do futuro mais sólido e com ideais profundos! Porque a estrutura do nosso país está comprometida por causa de um punhado de "políticos da pior espécie" que enriquece à custa do patrimônio do nosso Brasil. 
Antônio Carlos fala sobre a necessidade de uma mobilização entre os cristãos para melhorar a sociedade. Com isso, ele afirma que o livro visa ajudar no movimento de "diminuir a desigualdade social, atacar violações dos direitos humanos que são praticadas contra os menos favorecidos. E pressionar as autoridades públicas no sentido de implementar políticas que criem oportunidade de vida para moradores de comunidades pobres". 
Ele fala da indignação em relação à capacidade do Estado, da Sociedade e de algumas igrejas lidarem com tamanha indiferença o sofrimento de tantas pessoas. Ele pondera: "O que eu espero é mostrar o quanto a Igreja e a sociedade devem interferir nesse controle social sobre o poder econômico e político, a fim de que estes não usem do poder de que dispõem para oprimir, mas se envolvam com o trabalho de viabilização da vida do pobre".
Lendo o livro de Tiago vemos o que ele diz sobre a fé: Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma. O que é fé?  Fé é a confiança, um sentimento de total de crença em alguém. Como nos informa o texto de Hebreus 11.1: A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem. A fé cristã implica crer na Bíblia Sagrada, crer em todos os ensinamentos contidos nela.
O livro “Das boas obras” é a primeira das obras programáticas clássicas de Lutero do ano 1520. Lutero mostra que a fé transparece na vida cotidiana do cristão e lhe indica o rumo a ser tomado. É exatamente da sua fé que a pessoa justa tem sua vida. Ele entende que a fé se concretiza em diversos setores e nas múltiplas situações do dia-a-dia do cristão, seguindo a sequência dos dez mandamentos. Lutero entende que uma conduta que procede da fé, é cristã e boa. A fé nos capacita e nos impele a praticarmos boas obras.
Lutero defende que a vida cristã é a práxis da fé. Ele avalia que a fé sem obras é um absurdo, é um cadáver. Portanto, ele argumenta que a fé e as obras são inseparáveis. Não é suficiente proclamar a fé com palavras. Para ser cristão, não é suficiente acreditar, tem que praticar a fé dentro de nós mesmos.
Fico pensando no que Tiago diz sobre a fé no sentido da prática e vejo que nossa vida implica em mente, coração e mãos. Somos movidos a pensar, sentir e agir em tudo da vida e do cotidiano. Nossa fé tem que ser prática e não egocêntrica. Vivemos uma realidade triste no país, das injustiças, do abuso de poder, da violência infantil, da desigualdade, do preconceito racial e riquezas ilícitas. O que nossa fé tem a ver com isso?
Tem a ver quando mostramos uma fé que demonstra compaixão. Uma fé que se traduz numa atitude sincera e não medíocre para com o que está nu, para com aquele que está passando fome. Uma fé que jamais tem a coragem de dizer para os necessitados: Ide em paz, aquentai-vos e fartai-vos.
Tiago afirma que esse tipo de fé sem obras de amor é morta em si mesma, esta fé não tem eficácia, não tem efeito algum no Reino de Deus. É uma fé de teoria distante da essência do Reino de Deus. Tiago fala de uma fé que tem que ser viva e não morta. Uma fé que se importa com a necessidade do próximo. Não uma fé gelada, inútil e inativa. Ele mostra a necessidade de demonstrarmos uma fé consoladora, uma fé amiga, com a verdade, com amor no coração para com os aflitos e a fé que olha compara com graça e compaixão para os sofridos na vida.
A nossa fé não pode ser morta, sem evidências de um compromisso com milhões de famintos na nossa sociedade brasileira. A nossa fé tem de ser demonstrada de maneira viva para com as moças que estão destruindo sua vida na prostituição.
Temos que demonstrar nossa fé de maneira viva para com os milhares de meninos que estão se destruindo nas drogas, nos roubos e na bebida aí fora. Uma fé que tem a ver não somente com palavras bonitas, mas com atitudes concretas de amor e de carinho com gente que tem dor na alma e no coração!
A única esperança para essa nação é se voltar para o Deus da criação e pedir compaixão, pedir por um povo mais consciente de sua natureza pecaminosa e a necessidade que esse Deus gracioso nos perdoe e nos molde pela sua graça. Para que ele nos dê a graça de praticarmos a tão sonhada justiça social, o cuidado com os menos favorecidos porque vivemos num país de desigualdades enormes e que nos assustam profundamente.
A minha alma chora e clama por isso, para que sonhemos com um país onde as pessoas entrem e saiam de suas casas sem medo das balas perdidas e sem medo de ser tratadas com violência. E isso acontece através do exercício da fé genuína que crê e age, a fé que se identifica com as pessoas e seus dilemas mais profundos da alma. Gosto demais do que Henri Nouwen diz no seu livro Envelhecer: Para cuidar de alguém é preciso oferecer o próprio e valioso ser aos outros como uma fonte de cura pela graça divina. Como isso acontece? Através da prática de uma fé bíblica e cristã.
Deixo algumas dicas para essa prática da fé bíblica e cristã:

1. Lembremos que o ser humano é a revelação viva do ser de Deus. Então, devemos cuidar dele exercitando nossa fé com ação.
2. Invistamos tempo naqueles que estão em estado de privação e vulnerabilidade.
3. Respeitemos e zelemos pelos nossos pais, avós e idosos em geral da nação.
4. Lembremos que fé significa algo profundo que precisa desembocar em algo concreto. Ela implica em ouvir as vozes do desespero e da dor.
5. Aprendamos a exercitar a nossa fé doando um pouco mais de nós mesmos para os outros.
6. Pratiquemos nossa fé olhando para pessoas que estão bem perto de nós.
7. Não amemos o dinheiro, apenas o usemos como meio e não como um fim em si mesmo.

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Alcindo Almeida é membro da equipe pastoral da Igreja Presbiteriana da Alphaville em São Paulo.

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