(II Samuel 11.1-27)
Bate-Seba
era uma mulher formosa cujo nome significava "sétima filha" ou
"filha de um juramento". A sua beleza atraiu os olhos do rei Davi
quando este se encontrava no alpendre do palácio e ela se banhava no jardim da
sua casa. Interessante avaliarmos a condição de Davi no processo todo. Mas,
antes, olhemos para o nosso contexto de vida. Vivemos um tempo de cheio de
loucuras, os dias ficaram uma correria sem medida. Há vários acontecimentos na
vida. E ficamos pensando: se existisse uma caixa de DVDs documentando cada
segundo de nossa vida, quais DVDs nós queimaríamos?
Há
uma época em que cedemos ao desejo, em que alguém bebeu ou fumou! Há épocas em
que tivemos de mentir como, por exemplo, na adolescência que é uma fase difícil
demais. O rei Davi cedeu ao desejo, matou, enganou e mentiu malignamente. Davi
teve uma queda grotesca. E é algo que não conseguimos entender vindo de um
homem com tamanha sensibilidade diante de Deus.
Ele
seduz e engravida Bate-Seba, assassina seu marido e engana seu general e
soldados. Depois ele se casa com ela e ela tem o filho. A verdade parece estar
totalmente coberta. O observador descuidado não detecta nenhuma razão para
preocupação. Davi tem uma nova esposa e uma vida feliz. Tudo parece bem no
trono. Mas, nem tudo está bem no coração de Davi.
Ele,
mais tarde, descreverá esse período de pecado encoberto em termos explícitos: Enquanto eu mantinha escondidos os meus
pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer. Pois dia e noite a tua mão
pesava sobre mim; minhas forças foram-se esgotando como em tempo de seca (Salmo
32.3-4). A alma de Davi fica estéril, frustrada, envolta em tristeza. A sua
harpa está pendurada e sem cordas. Sua esperança hiberna e ele se torna num
sujeito que é um desastre ambulante. Ele não consegue escapar. Por quê? Porque
Deus continua a trazê-la à tona[1]. Davi seduz Bate-Seba e se
deita com ela e não há menção de Deus. Até aqui ele não aparecia no texto, não
havia sido mencionado na história. Davi conspira — não há menção de Deus. Urias
enterrado, Bate-Seba casada — não há menção de Deus. Não se fala com Deus e
Deus não fala.
A
primeira metade do versículo 27 atrai o leitor para um falso final feliz: Bate-Seba "se tornou sua mulher e teve
um filho dele". Eles decoram o quarto do bebê e escolhem nomes tirados
de uma revista. Nove meses se passam. Um menino nasce. E concluímos: Davi
escapa de um tiro. Anjos jogam essa história na pasta etiquetada: "Meninos são assim". Deus faz
vista grossa. Contudo, quando pensamos que é assim e Davi espera que seja...
Alguém sai de trás da cortina e ocupa o centro do palco e o texto nos diz
claramente: O que Davi fez desagradou ao
Senhor. O que aprendemos neste texto?
O
princípio que aprendemos é:
1.
Cuidado com a falta de sensibilidade diante de Deus:
O
texto afirma em II Samuel
11.1-5: Tendo decorrido um ano, no tempo
em que os reis saem à guerra, Davi enviou Joabe, e com ele os seus servos e
todo o Israel; e eles destruíram os amonitas, e sitiaram a Rabá. Porém Davi
ficou em Jerusalém.Ora, aconteceu que, numa tarde, Davi se levantou do seu
leito e se pôs a passear no terraço da casa real; e do terraço viu uma
mulher que se estava lavando; e era esta mulher mui formosa à vista.Tendo
Davi enviado a indagar a respeito daquela mulher, disseram-lhe: Porventura não
é Bate-Seba, filha de Eliã, mulher de Urias, o heteu? Então Davi mandou
mensageiros para trazê-la; e ela veio a ele, e ele se deitou com ela (pois já
estava purificada da sua imundícia); depois ela voltou para sua casa. A mulher
concebeu; e mandou dizer a Davi: Estou grávida.
Vejam
que o capítulo 9 apresenta um Davi herói, um Davi cheio de misericórdia da
parte de Deus. No capítulo 10 temos um Davi herói e vencedor que tem Deus no
centro do coração.
No
capítulo 11 temos um Davi desocupado, sem nada a fazer. Estranhamente Davi está
no palácio sendo que deveria estar na guerra. Temos neste No capítulo 11 um
Davi que perdeu a sensibilidade diante de Deus. Ele se desvia de Deus e anda
agora por sua própria cabeça. A sua alma agora fica contaminada no pó por
crimes que cometerá de maneira atroz e cruel. Ele perde Deus como foco. Daí
está passeando e vê uma bela mulher. Ele a vê e a quer para si. Porque está sem
nada para fazer, está fora do seu verdadeiro posto e está com o coração seco,
sem sensibilidade espiritual.
Quando
ele indaga quem era a mulher, os servos dizem que ela tem um marido chamado
Urias. Mesmo assim, ele pede para que eles tragam a moça que não é sua esposa.
Percebam que Davi tinha outras mulheres, ele era rei e considerado como um anjo
em Israel. Davi
era valioso demais para todos em Jerusalém. Seria algo precioso para uma das
mulheres estarem com Davi. Ele teria toda atenção do mundo, mas ele sem
sensibilidade diante de Deus perde a razão e se deita com a mulher do seu
próximo quebrando os 7º e 10º mandamentos. Qual é a dica para nós?
·
Cuidado
com a mente vazia:
Davi
não deveria estar ali. Ele deveria estar na batalha com seus homens. Cuidado
com a mente vazia. Ela nos leva para pensamentos indevidos. Olhem para Davi.
Estava vagando pelo palácio. Estava sem ocupar a sua mente com as estratégias
da guerra e das conquistas para o seu reinado. Isto gerou pecado, isto gerou
uma ação terrível na vida de Davi. Ocupemos a nossa mente com a Palavra de
Deus. Ocupemos a nossa mente com o Reino de Deus e as suas demandas. Não sejamos
com Davi que deu brechas na sua mente e acabou sendo seduzido pelo pecado.
·
Nunca
perca a visão da santidade diante de Deus nunca:
Eu
li um livro precioso demais O melhor da espiritualidade brasileira. E nele os autores
trabalham a necessidade de uma espiritualidade sadia e profunda com Deus. Um
deles é Ricardo Barbosa. Ele afirma que chegamos ao
fim do século XX com um sentimento de fracasso, vazio, descrença e desilusão.
Nossos avanços sistemáticos na Teologia foram grandes e de uma enorme
contribuição para a Igreja e a fé cristã. No entanto, falhamos na construção de
uma gramática que estabelecesse uma relação real entre o que professamos crer e
a vida.
A gramática teológica, para muitos, é diferente da gramática da
vida. A crise espiritual é fruto da ausência de gramática. Da mesma forma como
precisamos de uma gramática para dar sentido à linguagem, precisamos de uma
gramática que dê sentido à fé. Conhecer a Deus implica “amá-lo de todo coração,
alma e entendimento”. Isto envolve a totalidade da vida, mente e coração em
comunhão pessoal com Deus, e significa que o conhecimento não pode ser
divorciado do relacionamento, nem a Teologia pode caminhar sem a oração.
O apóstolo Paulo nos diz que a sã doutrina é importante, não para
nos dar títulos ou temas para teses, mas, para nos tornar sábios para a
salvação [2].
É preciso que voltemos para o centro de tudo para fugirmos do pecado que nos
assedia tão fortemente. É preciso resgatar aquela sensibilidade que Davi tinha
antes de cair. Ele pensava em Deus, respirava Deus e não se preocupava com mais
nada a não ser Deus. A gramática espiritual de Davi era Deus.
Quando olhamos para os Evangelhos e, particularmente, para os
encontros de Jesus, percebemos que o foco dele não estava apenas nas
convicções, mas na gramática da vida [3]. É preciso ter cuidado
com este aspecto importante na vida cristã a sensibilidade diante de Deus.
A contemplação e a imaginação sempre ocuparam um lugar fundamental
na formação espiritual do povo de Deus. Grande parte do ensino de Jesus se deu
através de parábolas e histórias que levavam as pessoas a imaginar a riqueza do
Reino de Deus e o propósito da redenção. Os lírios do campo, as aves do céu, a
casa sobre a rocha, a videira ou a ovelha perdida são imagens que nos convidam
à contemplação, e não à formulação matemática da fé.
O apóstolo Paulo, diante das dificuldades, perseguições e
tribulações que enfrentou em seu ministério, não se deixou abater pelas lutas
reais e visíveis. Pelo contrário, preferiu manter os olhos fixos “naquilo que
não se vê, porque aquilo que se vê é temporário, mas o que não se vê é eterno”.
Para ele, havia uma realidade não visível, mais verdadeira que as realidades
visíveis. Por causa da contemplação, ele não se deixou abater pelas
dificuldades visíveis [4]. Porque
ele tinha uma sensibilidade profunda diante de Deus. Não percamos isto na vida!
Porque se a perdermos seremos iguais a Davi quando se esqueceu de Deus.
·
Cuidado
com o pecado porque ele é traiçoeiro e destrói a vida da gente:
Se
tentarmos recuperar o conhecimento do pecado nos dias de hoje teremos grandes
barreiras. Sem nenhum exagero, a consciência moderna não encoraja a antiga
reprovação moral. Alguns pregadores falam pouco sobre o pecado. Já houve uma
época em que os professores de curso colegial nas escolas públicas tentavam
mostrar aos alunos algo do grande drama moral do universo.
Esses
professores desejavam que os alunos conhecessem o bem e o mal, descrevessem as
guerras entre os dois, e julgassem o resultado dessas guerras. A ideia era
refinar o caráter e aguçar o julgamento dos alunos, fazer deles pessoas mais
profundas e melhores cidadãos. Hoje, boa parte da educação pública é
treinamento de emprego, e a guerra entre o bem e o mal, com demasiada frequência,
tem ficado reduzida a guerrilhas fronteiriças entre os politicamente corretos e
os politicamente desafiados.
O
pecado é tão normal na sociedade hoje que os funcionários públicos raramente
confessam o que fizeram de errado. Após terem sido acusados de algum tipo de
mau comportamento, eles raramente dizem: Eu
fiz isso. Estou profundamente envergonhado de mim mesmo. Traí vocês e desonrei
meu alto cargo, por isso venho pedir minha demissão. Cuidado com o pecado!
Ele nos destrói por completo, ele nos leva para os abismos da vida. Samuel
Johnson tinha razão: Precisamos com muito
mais frequência ser relembrados do que instruídos. O pecado não é exceção. Na
verdade, para a maioria de nós um lembrete salutar de nosso pecado e culpa
seria adequadamente esclarecedor, e até mesmo tranquilizador. O motivo é que, ao contrário de algumas
outras identificações de problemas humanos, um diagnóstico de pecado permite
esperança. Algo pode ser feito por esse problema. Algo já foi feito por
ele” [5].
Pecado é traduzido ("hamartia") por "errar o
alvo" ou "perder a marca".
Vejam
o que o pecado, erro do alvo fez a Davi.
Destruiu sua reputação, destruiu a sua moral, destruiu sua paz por algum tempo.
Gerou mortes inocentes como de Urias e do menino que nasceu e reservou experiências
terríveis para ele e para a sua família. Cuidado! O pecado desnuda outros
problemas humanos pervertendo o nosso coração e nos faz perder a nossa
humanidade. Ele nos faz perder a sensibilidade diante de Deus. O pecado é uma
raiz terrível que gera solidão, inquietação, separação da comunhão com Deus e
vergonha profunda em nosso interior. Pecado é a cegueira e a surdez diante de
Deus. Então, tomemos cuidado, porque ele nos faz ficar cegos em relação ao
coração de Deus. O pecado é a culpa pela
quebra do Shalom [6].
Quando
rompemos com o Shalom de Deus ofendemos a sua santidade e rompemos com a
aliança feita por ele em
Jesus Cristo , o nosso Senhor. Quando perdemos a sensibilidade
diante de Deus, damos vazão ao pecado e consequentemente quebramos o Shalom de
Deus em nosso coração. Perdemos aquilo que é parte do Shalom a piedade.
Que
Deus nos dê graça para que tomemos muito cuidado com as ciladas do pecado em
nossa vida!
[1] LUCADO, Max. Derrubando Golias
Descubra como superar os maiores obstáculos de sua vida. Rio de Janeiro:
Thomas Nelson, 2007, p. 111.
[2] BOMILCAR, Nelson. O melhor da espiritualidade brasileira.
São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p. 18.
[3] BOMILCAR, 2005, p. 21.
[4] BOMILCAR, 2005, p. 23.
[5] PLANTINGA, Cornelius. Loucuras
da moda: pecado e caráter. Palestra de janeiro, Calvin College,
15/1/93.
[6] PLANTINGA, Cornelius. Não
era para ser assim. Um resumo da dinâmica e natureza do pecado. São
Paulo: Cep, 19981998, p. 17.

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