Estudo 19

Bate-Seba: a mulher que sofreu assédio do homem de Deus
(II Samuel 11.1-27)

Bate-Seba era uma mulher formosa cujo nome significava "sétima filha" ou "filha de um juramento". A sua beleza atraiu os olhos do rei Davi quando este se encontrava no alpendre do palácio e ela se banhava no jardim da sua casa. Interessante avaliarmos a condição de Davi no processo todo. Mas, antes, olhemos para o nosso contexto de vida. Vivemos um tempo de cheio de loucuras, os dias ficaram uma correria sem medida. Há vários acontecimentos na vida. E ficamos pensando: se existisse uma caixa de DVDs documentando cada segun­do de nossa vida, quais DVDs nós queimaríamos?
Há uma época em que cedemos ao desejo, em que alguém bebeu ou fumou! Há épocas em que tivemos de mentir como, por exemplo, na adolescência que é uma fase difícil demais. O rei Davi cedeu ao desejo, matou, enganou e mentiu malignamente. Davi teve uma queda grotesca. E é algo que não conseguimos entender vindo de um homem com tamanha sensibilidade diante de Deus.
Ele seduz e engravida Bate-Seba, assassina seu marido e engana seu general e soldados. Depois ele se casa com ela e ela tem o filho. A verdade parece estar totalmente coberta. O observador descui­dado não detecta nenhuma razão para preocupação. Davi tem uma nova esposa e uma vida feliz. Tudo parece bem no trono. Mas, nem tudo está bem no coração de Davi.
Ele, mais tarde, descreverá esse período de pe­cado encoberto em termos explícitos: Enquanto eu mantinha escondidos os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer. Pois dia e noite a tua mão pesava sobre mim; minhas forças foram-se esgotando como em tempo de seca (Salmo 32.3-4). A alma de Davi fica estéril, frustrada, envolta em tristeza. A sua harpa está pendurada e sem cordas. Sua esperança hiberna e ele se torna num sujeito que é um desastre ambulante. Ele não con­segue escapar. Por quê? Porque Deus continua a trazê-la à tona[1]. Davi seduz Bate-Seba e se deita com ela e não há menção de Deus. Até aqui ele não aparecia no texto, não havia sido mencionado na história. Davi conspira — não há menção de Deus. Urias enterrado, Bate-Seba casada — não há menção de Deus. Não se fala com Deus e Deus não fala.
A primeira metade do versículo 27 atrai o leitor para um falso final feliz: Bate-Seba "se tornou sua mulher e teve um filho dele". Eles decoram o quarto do bebê e escolhem nomes tirados de uma revista. Nove meses se passam. Um menino nasce. E concluímos: Davi escapa de um tiro. Anjos jogam essa história na pasta etiquetada: "Meninos são assim". Deus faz vista grossa. Contudo, quando pensamos que é assim e Davi espera que seja... Alguém sai de trás da cortina e ocupa o centro do palco e o texto nos diz claramente: O que Davi fez desagradou ao Senhor. O que aprendemos neste texto?
O princípio que aprendemos é:

1.            Cuidado com a falta de sensibilidade diante de Deus:

O texto afirma em II Samuel 11.1-5: Tendo decorrido um ano, no tempo em que os reis saem à guerra, Davi enviou Joabe, e com ele os seus servos e todo o Israel; e eles destruíram os amonitas, e sitiaram a Rabá. Porém Davi ficou em Jerusalém.Ora, aconteceu que, numa tarde, Davi se levantou do seu leito e se pôs a passear no terraço da casa real; e do terraço viu uma mulher que se estava lavando; e era esta mulher mui formosa à vista.Tendo Davi enviado a indagar a respeito daquela mulher, disseram-lhe: Porventura não é Bate-Seba, filha de Eliã, mulher de Urias, o heteu? Então Davi mandou mensageiros para trazê-la; e ela veio a ele, e ele se deitou com ela (pois já estava purificada da sua imundícia); depois ela voltou para sua casa. A mulher concebeu; e mandou dizer a Davi: Estou grávida.
Vejam que o capítulo 9 apresenta um Davi herói, um Davi cheio de misericórdia da parte de Deus. No capítulo 10 temos um Davi herói e vencedor que tem Deus no centro do coração.
No capítulo 11 temos um Davi desocupado, sem nada a fazer. Estranhamente Davi está no palácio sendo que deveria estar na guerra. Temos neste No capítulo 11 um Davi que perdeu a sensibilidade diante de Deus. Ele se desvia de Deus e anda agora por sua própria cabeça. A sua alma agora fica contaminada no pó por crimes que cometerá de maneira atroz e cruel. Ele perde Deus como foco. Daí está passeando e vê uma bela mulher. Ele a vê e a quer para si. Porque está sem nada para fazer, está fora do seu verdadeiro posto e está com o coração seco, sem sensibilidade espiritual.
Quando ele indaga quem era a mulher, os servos dizem que ela tem um marido chamado Urias. Mesmo assim, ele pede para que eles tragam a moça que não é sua esposa. Percebam que Davi tinha outras mulheres, ele era rei e considerado como um anjo em Israel. Davi era valioso demais para todos em Jerusalém. Seria algo precioso para uma das mulheres estarem com Davi. Ele teria toda atenção do mundo, mas ele sem sensibilidade diante de Deus perde a razão e se deita com a mulher do seu próximo quebrando os 7º e 10º mandamentos. Qual é a dica para nós?

·                    Cuidado com a mente vazia:

Davi não deveria estar ali. Ele deveria estar na batalha com seus homens. Cuidado com a mente vazia. Ela nos leva para pensamentos indevidos. Olhem para Davi. Estava vagando pelo palácio. Estava sem ocupar a sua mente com as estratégias da guerra e das conquistas para o seu reinado. Isto gerou pecado, isto gerou uma ação terrível na vida de Davi. Ocupemos a nossa mente com a Palavra de Deus. Ocupemos a nossa mente com o Reino de Deus e as suas demandas. Não sejamos com Davi que deu brechas na sua mente e acabou sendo seduzido pelo pecado.

·                    Nunca perca a visão da santidade diante de Deus nunca:

Eu li um livro precioso demais O melhor da espiritualidade brasileira. E nele os autores trabalham a necessidade de uma espiritualidade sadia e profunda com Deus. Um deles é Ricardo Barbosa. Ele afirma que chegamos ao fim do século XX com um sentimento de fracasso, vazio, descrença e desilusão. Nossos avanços sistemáticos na Teologia foram grandes e de uma enorme contribuição para a Igreja e a fé cristã. No entanto, falhamos na construção de uma gramática que estabelecesse uma relação real entre o que professamos crer e a vida.
A gramática teológica, para muitos, é diferente da gramática da vida. A crise espiritual é fruto da ausência de gramática. Da mesma forma como precisamos de uma gramática para dar sentido à linguagem, precisamos de uma gramática que dê sentido à fé. Conhecer a Deus implica “amá-lo de todo coração, alma e entendimento”. Isto envolve a totalidade da vida, mente e coração em comunhão pessoal com Deus, e significa que o conhecimento não pode ser divorciado do relacionamento, nem a Teologia pode caminhar sem a oração.
O apóstolo Paulo nos diz que a sã doutrina é importante, não para nos dar títulos ou temas para teses, mas, para nos tornar sábios para a salvação [2]. É preciso que voltemos para o centro de tudo para fugirmos do pecado que nos assedia tão fortemente. É preciso resgatar aquela sensibilidade que Davi tinha antes de cair. Ele pensava em Deus, respirava Deus e não se preocupava com mais nada a não ser Deus. A gramática espiritual de Davi era Deus.
Quando olhamos para os Evangelhos e, particularmente, para os encontros de Jesus, percebemos que o foco dele não estava apenas nas convicções, mas na gramática da vida [3]. É preciso ter cuidado com este aspecto importante na vida cristã a sensibilidade diante de Deus.
A contemplação e a imaginação sempre ocuparam um lugar fundamental na formação espiritual do povo de Deus. Grande parte do ensino de Jesus se deu através de parábolas e histórias que levavam as pessoas a imaginar a riqueza do Reino de Deus e o propósito da redenção. Os lírios do campo, as aves do céu, a casa sobre a rocha, a videira ou a ovelha perdida são imagens que nos convidam à contemplação, e não à formulação matemática da fé.
O apóstolo Paulo, diante das dificuldades, perseguições e tribulações que enfrentou em seu ministério, não se deixou abater pelas lutas reais e visíveis. Pelo contrário, preferiu manter os olhos fixos “naquilo que não se vê, porque aquilo que se vê é temporário, mas o que não se vê é eterno”. Para ele, havia uma realidade não visível, mais verdadeira que as realidades visíveis. Por causa da contemplação, ele não se deixou abater pelas dificuldades visíveis [4]. Porque ele tinha uma sensibilidade profunda diante de Deus. Não percamos isto na vida! Porque se a perdermos seremos iguais a Davi quando se esqueceu de Deus.

·                    Cuidado com o pecado porque ele é traiçoeiro e destrói a vida da gente:

Se tentarmos recuperar o conhecimento do pecado nos dias de hoje teremos grandes barreiras. Sem nenhum exagero, a consciência moderna não encoraja a antiga reprovação moral. Alguns pregadores falam pouco sobre o pecado. Já houve uma época em que os professores de curso colegial nas escolas públicas tentavam mostrar aos alunos algo do grande drama moral do universo.
Esses professores desejavam que os alunos conhecessem o bem e o mal, descrevessem as guerras entre os dois, e julgassem o resultado dessas guerras. A ideia era refinar o caráter e aguçar o julgamento dos alunos, fazer deles pessoas mais profundas e melhores cidadãos. Hoje, boa parte da educação pública é treinamento de emprego, e a guerra entre o bem e o mal, com demasiada frequência, tem ficado reduzida a guerrilhas fronteiriças entre os politicamente corretos e os politicamente desafiados.
O pecado é tão normal na sociedade hoje que os funcionários públicos raramente confessam o que fizeram de errado. Após terem sido acusados de algum tipo de mau comportamento, eles raramente dizem: Eu fiz isso. Estou profundamente envergonhado de mim mesmo. Traí vocês e desonrei meu alto cargo, por isso venho pedir minha demissão. Cuidado com o pecado! Ele nos destrói por completo, ele nos leva para os abismos da vida. Samuel Johnson tinha razão: Precisamos com muito mais frequência ser relembrados do que instruídos. O pecado não é exceção. Na verdade, para a maioria de nós um lembrete salutar de nosso pecado e culpa seria adequadamente esclarecedor, e até mesmo tranquilizador. O motivo é que, ao contrário de algumas outras identificações de problemas humanos, um diagnóstico de pecado permite esperança. Algo pode ser feito por esse problema. Algo já foi feito por ele” [5]. Pecado é traduzido ("hamartia") por "errar o alvo" ou "perder a marca". 
Vejam o que o pecado, erro do alvo fez a Davi. Destruiu sua reputação, destruiu a sua moral, destruiu sua paz por algum tempo. Gerou mortes inocentes como de Urias e do menino que nasceu e reservou experiências terríveis para ele e para a sua família. Cuidado! O pecado desnuda outros problemas humanos pervertendo o nosso coração e nos faz perder a nossa humanidade. Ele nos faz perder a sensibilidade diante de Deus. O pecado é uma raiz terrível que gera solidão, inquietação, separação da comunhão com Deus e vergonha profunda em nosso interior. Pecado é a cegueira e a surdez diante de Deus. Então, tomemos cuidado, porque ele nos faz ficar cegos em relação ao coração de Deus. O pecado é a culpa pela quebra do Shalom [6].
Quando rompemos com o Shalom de Deus ofendemos a sua santidade e rompemos com a aliança feita por ele em Jesus Cristo, o nosso Senhor. Quando perdemos a sensibilidade diante de Deus, damos vazão ao pecado e consequentemente quebramos o Shalom de Deus em nosso coração. Perdemos aquilo que é parte do Shalom a piedade.
Que Deus nos dê graça para que tomemos muito cuidado com as ciladas do pecado em nossa vida!

Pr. Alcindo Almeida: membro da equipe pastoral da IP Alphaville



[1] LUCADO, Max. Derrubando Golias Descubra como superar os maiores obstáculos de sua vida. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2007, p. 111.
[2] BOMILCAR, Nelson. O melhor da espiritualidade brasileira. São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p. 18.
[3] BOMILCAR, 2005, p. 21.
[4] BOMILCAR, 2005, p. 23.
[5] PLANTINGA, Cornelius. Loucuras da moda: pecado e caráter. Palestra de janeiro, Calvin College, 15/1/93.
[6] PLANTINGA, Cornelius. Não era para ser assim. Um resumo da dinâmica e natureza do pecado. São Paulo: Cep, 19981998, p. 17.

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