Palestra 7 - Pr. Ricardo Barbosa

Uma espiritualidade no Evangelho do Senhor Jesus
(Hotel Paladium – Serra Negra – 10.04.2013)
(João 13.33-14.3)
O que significa para nós seguir Jesus na sua ausência?
O contexto desse texto tem a ver com um momento tenso. Jesus está no cenáculo. As emoções se encontram a flor da pele. Ele desejava muito aquela ceia. Os discípulos comeriam com ele somente na Eternidade. Ele os deixaria não poderiam segui-lo. Pedro disse que daria sua vida por ele, mas não o fez. Jesus disse que iria preparar um lugar.
Alguns estudiosos consideram que esse contexto tem a ver com o casamento judaico. Essa ideia nos ajuda entender a natureza do texto. O casamento começa bem antes do casamento propriamente dito, ou como nós conhecemos hoje. Havia um noivado que envolvia uma aliança. O noivo saia da casa em companhia de seu amigo mais íntimo. Ele ia à casa da noiva. A noiva não aparecia e vinha o pai da noiva. Eles conversavam e faziam os acertos para o casamento, para o dote.
Assim que o acerto era feito, a noiva era literalmente comprada através do dote (para nós é difícil lidar com esse modelo). Assim que confirmava o dote a noiva seria comprada. O casamento estava estabelecido como marido e mulher, mas não consumado.
Ela era consagrada, dedicada, separada para ele. Eles celebram esse momento com uma taça de vinho. O pai da noiva e noivo tomam um vinho juntos. E a partir daquele momento, se um deles morresse, seriam considerados viúvos ou viúvas. No caso de José e Maria, quando o noivo voltava para sua casa e a noiva para casa de seus pais.
Ele voltava para casa de seus pais para preparar um apartamento, um puxadinho, na propriedade de seus pais. Isso durava em torno de 12 meses ou um pouco mais. De um lado a noiva se preparava e o noivo também. Eles não tinham nenhum contato físico, embora estivessem legalmente casados. Numa noite, o noivo e todos seus amigos com tochas nas mãos iam na casa da noiva. E quando se aproximavam as pessoas vizinhas começavam a dizer que o noivo chegara. E isso fazia a noiva se preparar com as suas damas.
O noivo chega e fica na porta aguardando. Assim que a cerimônia começava tinha a seguinte palavra: tomar. Eles voltavam para casa do noivo com as amigas da noiva e todos voltavam cantando para casa do noivo. Ele dava uma rápida saudação aos presentes, entravam na casa e o casamento se consumava. Depois de consumado o casamento a festa durava cerca de 6 dias. Somente no 4º dia que a noiva saía e participava da festa.
Imagine Jesus nesse contexto: com as emoções a flor da pele e com grandes tensões. Jesus toma o cálice e diz: Esse cálice é o cálice da nova aliança no meu sangue. Depois ele disse que estava indo embora e não poderiam acompanhá-los. Ele diz aos seus discípulos: Não fiquem confusos, conturbados. Confiem no Pai, confiem em mim. Estou indo preparar os aposentos, preparar um lugar. Depois voltarei para que onde eu estou e assim você estarão também.
Compreendemos o que Jesus está dizendo com essa imagem?
Havia na mente dele traduzir o que estava acontecendo na emoção dos discípulos. Jesus entrou nesse mundo. Jesus fez uma aliança e pagou o dote. O preço pago foi o de sangue na cruz do Calvário e o casamento já começou. Essa aliança não pode ser desfeita. Ele foi para casa do Pai para preparar lugar para nós e um dia virá nos buscar. Ele é o noivo, nós somos a noiva, ele é o grande amante de seu povo. Encontramos essa referência no Velho Testamento em Is. 54.4-5.
No cenáculo Jesus revela quem ele é e quem nós somos. Ele é o noivo, nós somos a noiva. Ele é o Senhor, nós somos os servos. Ele é o cabeça, nós somos o corpo. Somos essa noiva que é adornada para encontrar com o noivo. Ele fez isso porque nos amava e nos ama. Ele celebrou essa aliança com o cálice do seu sangue. Agora somos dele para sempre.
Como entender esse contexto com a ausência de Jesus?
Vivemos com o reino já inaugurado, mas, não consumado, vivemos com o noivado e casamento. A revelação de Jesus é a manifestação gloriosa de sua volta. Vivemos entre a sua partida e sua volta. Há uma série de elementos que nos ajuda a construir e refletir uma espiritualidade, um tipo de vida que é coerente com aquilo que somos diante de Jesus Cristo.
 
• Intimidade
 
Talvez muito mal usado em muitos títulos e literaturas. Subtende uma linguagem sensual. De forma alguma a proposta dos Evangelhos é essa. Se entendemos essa imagem, perceberemos o grande amor que Jesus tem por nós. Entenderemos a natureza do afeto, do compromisso, do amor zeloso que Deus tem por nós. Isso é que produz em nós uma relação de intimidade.
Pertencemos a ele, já somos sua noiva, já existe a aliança entre nós e ele. O problema é que temos o conceito de que o amor é platônico. Essa é uma forte influência, é o que vemos hoje em nossas igrejas: eu preciso sentir. Sendo que trata-se de viver apenas o amor divino como João ensina na sua Epístola: Vede com que grande amor ele vos amou.
Para João amor não era abstrato ou vago, ele era concreto, era fato! É uma ação concreta em que ele nos compra por amor a nós. Ele caminha até onde estamos, ele entra em nossa casa. Tendo a consciência desse amor, responderemos a ele em amor! Isso que cria uma profunda relação de intimidade espiritual.
 
• Segurança
 
Esse relacionamento proporciona segurança. Estamos numa aliança que não pode ser rompida e nem quebrada. Ele sela o compromisso de que estará conosco para sempre. Ele nos conhece nossos defeitos, nossas limitações e nossas feiuras.
Quando ele nos escolheu, sabia de todas essas coisas, e fez de nós sua noiva, ele fez uma aliança e não há nada que pode surpreendê-lo, leva-lo a quebra-la. Se entendêssemos o que isso significa não viveríamos com tanta insegurança afetiva.
 
• Resistência e perseverança
 
Quando compreendemos o que isso significa encontramos perseverança para os dias mais difíceis e confusos. O tempo que temos até o casamento é tempo de preparação. O amor, a expectativa do encontro estão presentes. As dificuldades que surgem são enfrentadas com coragem e grande expectativa porque aguardamos aquele dia. Paulo diz que o Espírito está preparando sua noiva sem mancha e nem ruga.
 
• A fidelidade
 
Quando passamos a entender melhor a aliança, capturamos essa imagem. Vivemos entre noivado e casamento, entre o realizado e não consumado. Fomos chamados, vocacionados para sermos dele. Aceitamos essa realidade com enorme alegria. Por que haveríamos de nos encantar com outras amantes que surgem oferecendo pequenos presentes?
Por isso que a idolatria, a mentira, a traição na Bíblia são tão enfáticas. E ela também é contra o adultério. Adultério é para descrever idolatrias, ideologias e seduções que tentam nos afastar desse grande verdade. É a grande tarefa da prostitua Babilônia, que são os lugares onde vivemos, onde se levantam tantas situações, possibilidades para seduzir nosso coração, nossa atenção e tirar de nós o foco na aliança.
 
• Esse tempo produz em nós uma profunda transformação
 
Se essa imagem for clara para nós, entendemos por que somos transformados. A expectativa transforma as pessoas. Quanto mais seguros estamos que somos amados, quanto maior a expectativa para encontrar com a pessoa. Mais nos empenhamos para nos parecermos com a pessoa amada, para agradá-la mais e mais.
O autor de Hebreus diz que fé é o meio para agradar a Deus. Sem fé é impossível fazer milagres, mas impossível agradar a Deus. Quanto mais próximos nos encontramos da pessoa amada, mais ansiaremos por ela. Esse era o anseio do contexto do VT quanto ao Messias. Quando o noivo sela este pacto com a noiva ela é transformada. Perdemos essa imagem. Não somos mais capazes de capturá-la por causa da nossa fragilidade na visão espiritual.
 
• Há uma esperança que brota de experiência
 
Uma vez que essa imagem nos envolve, somos tomados pelo cenário do noivo e da noiva. Somos envolvidos com um desejo intenso para nos encontrarmos com ele. Deveríamos orar com mais intensidade: Maranata, vem Senhor Jesus. Essa imagem parece que é muito ausente no meio da cristandade.
A igreja no Primeiro Século vivia com essa consciência e com esse desejo. Ela orava: Vem senhor Jesus. Essa oração sustenta a esperança da noiva. Esta oração descreve esse tempo e preparo, o desejo que a noiva tem de se encontrar com seu noivo, e consumar o casamento com ele para o resto do tempo.
 
 Simplicidade
 
Como um elemento que envolve, talvez com nos casamentos de hoje não ajuda muito (hoje dá muito mais dor de cabeça que prazer). Com Jesus e seu estilo de vida, aprendemos a simplificar a agenda. Na verdade quem ama simplifica, diminui, renuncia.
Quando nós vemos algumas expressões no Evangelho que parecem tão dura: tomar a cruz, renunciar, abrir mão – são expressões para nós cristãos não materialistas, auto-centradas  e soam com tom muito negativo. Mas, quando temos o cenário diante de nós, estas expressões ganham outro significado: a renúncia, o sacrifício não são pesos, não significam nenhum peso e nenhum obstáculo. Fazemos isso com extrema leveza, com extrema facilidade.
Jesus descreve isso na parábola da pérola de grande valor. Vende o campo e compra a pérola. Faz isso porque captura uma grande realidade. O que ele capturara é muito maior do que aquilo que perde. Quem ama não tem dificuldade. Sabe da facilidade de abrir mão para atender e satisfazer a pessoa amada. Isso simplifica nossa vida. Simplifica porque outros valores, outras agendas se tornam mais importante.
Geralmente as pessoas envolvidas com muitas coisas – realizam isso porque querem fugir. O amor facilita a renuncia o sacrifício. Jesus faz esse caminho, esse percurso e vem até nós. Vem até a porta da nossa casa por graça e amor. Ele celebra uma aliança conosco e ela é celebrada com cálice que tomamos.
Vivemos esse tempo entre o noivado e casamento. Aliança que já foi selada e feita pelo sangue de Jesus e do dia em que Ele virá para estar para sempre conosco. Vivemos uma experiência de fé de alguém, de uma comunidade que já pertence e já foi consagrada.
Esse dia em que o noivo virá e ouviremos as vozes dizendo que o noivo chegou. Cultivaremos os dias com a realidade de que o amor foi selado e nada vai quebrar essa aliança.
Essa realidade nos traz uma espiritualidade que emerge do coração do Evangelho.
 
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Anotações de Alcindo e Eleazar.

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