Resenha do livro: O Deus pródigo: Descubra a essência da fé cristã na parábola mais tocante de Jesus.

KELLER, Timothy. O Deus pródigo: Descubra a essência da fé cristã na parábola mais tocante de Jesus. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2010.

Tim Keller, nasceu na Pensilvânia e estudou no Gordon-Conwell Theological Seminary e no Westminster Theological Seminary. Em 1989, inaugurou, junto com a sua esposa Kathy e seus três filhos, a Igreja Presbiteriana Redeemer, uma das mais “vibrantes congregações em Manhattan”, segundo a Christianity Today. Entre os seus livros, destaque para mais dois editados aqui no Brasil a fé na era do ceticismo e deuses falsos.
O livro sustenta que, quanto à postura diante de Deus, há basicamente dois tipos de pessoas: Os irmãos mais novos (nos dias de Jesus, publicanos e pecadores - Cap. 1, p. 25) e os irmãos mais velhos (fariseus e mestres da lei - Cap. 1, p. 26). Esses dois tipos (irmãos mais novos e irmãos mais velhos) estão retratados na parábola de Lucas 15. Ambos estão perdidos. A mensagem desta parábola, ao contrário do que se pensa, está concentrada no irmão mais velho terminando com um suspense que na verdade dá espaço para que os próprios fariseus deem uma resposta ao imediato apelo de Jesus feito nesta parábola quando Jesus antes de tudo foi acusado por eles de receber pecadores e comer com eles.
E qual é a mensagem desta parábola? “Jesus redefine aqui tudo que pensamos que sabíamos sobre a ligação com Deus. Ele redefine o pecado, o que significa estar perdido e o que significa ser salvo” (Cap. 2 p. 48).
No capítulo 3, pensando na redefinição de pecado, o livro retrata que Jesus usa as figuras do filho mais novo e do filho mais velho como arquétipos de dois caminhos para a busca da felicidade e da realização. Um prega a ruptura imediata com a tradição, as regras se lançando na via do autoconhecimento e o outro (o filho mais velho, claro) permanece na sua conduta aparentemente irrepreensível de submissão à tradição, às regras e aos bons costumes. Mas o que ambos desejam no fundo do coração é a mesma coisa: O poder. O poder para usurpar a autoridade do Pai. Querem o lugar de Deus, são auto-salvadores. É assim, que Jesus está redefinido o pecado .
E, sendo esta a questão, cabe aqui ressaltar que a situação do modelo designado como filho mais velho é muito mais perigosa, porque ele, durante todo o processo, permanece cego, obscurecido pelo próprio orgulho, incapaz de enxergar a sua realidade e, portanto, sem condições de agradar ao pai participando do banquete da salvação.
No capítulo 4, vemos como Jesus redefine a perdição. Claro que, antes desta parábola só pensaríamos no filho mais novo como perdido. Mas aqui Jesus nos mostra o filho mais velho, diante da volta do irmão mais novo e da atitude receptiva do pai, cheio de ira. Este é o primeiro sinal de que ele também está perdido espiritualmente. Ele esperava que as sua bondade rendesse frutos. E, também, se via superior aos outros. Ele se submetia melancolicamente motivado pelo medo e não confiava no amor do pai para com ele mesmo. É importante salientar que o filho mais velho jamais se entregara a um relacionamento íntimo como o pai. Os filhos mais velhos são em si uma grande motivação para a fuga dos irmãos mais novos. Eles enquanto acusam os mais novos de devassidão precisam ainda mais desesperadamente de um espelho para verem a si mesmos.
Capítulo 5, o autor trabalha a ideia do verdadeiro irmão mais velho. Note que a primeira coisa que ambos os tipos de pessoas perdidas precisam é de experimentar o amor acolhedor do pai. Na parábola o pai está indo ao encontro dos seus dois filhos perdidos. Porém, fica totalmente patente a diferença entre a parábola do filho pródigo e as outras duas, a da ovelha perdida e da moeda perdida:
Nas duas primeiras, quem perde vai procurar até encontrar o que perdeu. Porém, na terceira parábola, ninguém vai buscar o filho perdido. Fica evidente para quem observa esta diferença que o filho mais velho deveria usar o seu dinheiro (ambos receberam as suas heranças no início da parábola) para buscar pelo irmão mais novo. E, se o dinheiro da família, uma vez que o filho mais novo perdeu o seu, estava com o filh o mais velho, o perdão gratuito e incondicional para o filho mais novo era à custa dos recursos do filho mais velho. Mas como o filho mais velho se ira com a situação e se recusa a festejar com o pai, então ficamos ansiosos por um verdadeiro filho mais velho: Jesus Cristo é o novo verdadeiro irmão mais velho que deixou os céus para morrer por nós na cruz.
No capítulo 6, o autor traz uma redefinição de esperança à luz de Lucas 15. O autor insiste que esta parábola, levando em consideração o contexto inteiro da Bíblia, nos remete a um tema recorrente que é o exílio e o retorno para casa trazendo esperança para o mundo todo (p. 121). Então o autor discorre sobre a importância da ideia de casa para nós seres humanos. Vivemos uma nostalgia que permanece a vida toda, estamos sempre com saudades de uma casa que não existe mais. E, aqui, toda a humanidade se parece com o filho mais novo da parábola de Jesus, somos todos exilados, sempre com saudades de casa. O motivo está em Gênesis 3 que diz claramente que o ser humano foi expulso da sua casa por causa do pecado. E, desde então, conforme a Bíblia nos ensina temos vagado como exilados espirituais. Jesu s veio para nos salvar do nosso exílio provocado pelo pecado.
Jesus nos veio salvar da Morte. No final da história há um banquete propiciado por Jesus Cristo. Há muita coerência nisso quando a própria Bíblia se encerra com um banquete para o novo no final de Apocalipse. A esperança mais profunda que podemos ter em Jesus é de sermos recebidos, por causa do seu sacrifício, pelo Pai de volta a nossa casa e ali celebrarmos convidados para o banquete do Senhor.
O capítulo 7 trata então deste banquete do Pai. O banquete celebrando a nossa reconciliação com o pai também é um tema recorrente: Isaías 25, Mateus 8.11 e aqui no final da parábola. Esta é a melhor maneira de retratar uma vida pautada pela obra redentora de Jesus. Há quatro maneiras em que a nossa vida pode ser moldada pela mensagem do evangelho ou de experimentar esse banquete:
Em primeiro lugar a salvação é experimental. Jesus é Senhor da festa, ele nos traz a alegria festiva. Se a sua salvação é um banquete, ela deve ser experimentada. Não adianta apenas acreditar que o mel é doce. O problema é que temos dificuldade de experimentar esta graça de Deus tanto por excesso de predisposição ao místico quanto por excesso de racionalidade e de controle (p. 143). Mas a verdade é que se desvencilh armos dos excessos do ego e nos debruçarmos em Jesus Cristo teremos um vislumbre agora daquilo que nos espera no final desta história de salvação, graça e amor.
Segundo, a salvação é material. A santa ceia, o banquete de Apocalipse 19, Jesus ressuscitado comendo com os discípulos (Lucas 24.42-43; João 21.9) provam que este mundo material tem importância para Jesus. O plano de salvação de Jesus inclui a renovação deste mundo com o fim das doenças, da pobreza, da injustiça, da violência, do sofrimento e da morte. “O clímax da história não remete a uma forma mais elevada de consciência desligada do corpo, mas a um banquete” (p. 145). Por isso, nós que somos salvos pelo Senhor Jesus largamos de lado o egoísmo do filho mais novo ou o farisaísmo do filho mais velho para cuidar dos pobres (Mateus 25.34-40). “Os cristãos, portanto, podem falar sobre a salvação da alma tanto quanto da construção de sistemas sociais que tenham ruas mais seguras e la res aconchegantes na mesma frase (E com coerência)” – Pág. 146, 147.
Terceiro a Salvação é individual. O banquete é uma refeição, uma refeição proporciona crescimento pela nutrição. O cristão se alimenta do Evangelho. A Palavra de Deus deve reorientar a nossa vida não dentro do pressuposto religioso: Eu obedeço e sou salvo. Mas dentro do princípio do evangelho que é: Eu sou aceito por Deus por meio de Cristo, portanto eu obedeço. Crer implica naturalmente em transformação de vida segundo a vontade de Cristo. E, em quarto lugar, a salvação é comunal. Não se come um banquete sozinho. Há no comer junto uma oferta de amizade e de comunhão. Não é possível viver o cristianismo sem a comunhão com outros irmãos na fé. E o pão repartido entre nós é o próprio Jesus, o pão da vida.
O livro é de leitura agradável e estimulante. E, por ser um livro fino, de apenas 173 páginas (incluindo as notas, que são poucas e estão concentradas no final do livro) pode ser lido em poucas horas. Apesar da objetividade com que foi escrito, o livro aborda assuntos profundos do evangelho com clareza e de forma emocionante. De tudo o que observei no livro o ponto mais grave e negativo foi, espero que um erro de tradução, chamar a encarnação de Jesus de “reencarnação” (pág. 144). No mais, vale a pena a leitura deste livro. Eu recomendo.

__________
Job Quedevez Vieira.

Comentários

Postagens mais visitadas