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Ideias são como sementes – Olhar para dentro


Precisamos nos moldar pela poderosa ideia de cultivar a interioridade.

Este é mais um artigo de nossa série sobre a história de algumas ideias que, por conta da sua força, foram capazes de moldar toda uma geração. Nesta coluna, temos compartilhado propostas sobre como criar espaços sagrados no nosso cotidiano e ler a Bíblia como quem come um verdadeiro pão espiritual. Agora, vamos a mais uma delas: olhe para dentro e enfrente os demônios interiores.
Considerando que já não temos tempo para olhar os movimentos internos do nosso ser, uma vez que toda nossa atenção está cativa de tudo quanto acontece fora de nós, e considerando o inegável fato de vivermos numa sociedade midiática, adoradora da imagem, obcecada por reputação e viciada em performance, seria exagero afirmar que a interioridade desapareceu em nosso tempo? Ou, em outras palavras, quem – efetivamente –, no acelerado cotidiano, dedica algum tempo para olhar para dentro? Quem sente esta necessidade? Quem entende a ação de cultivar uma vida interior como sendo um verdadeiro tesouro? Certamente, uma minoria. Afinal, para que serve este olhar interior em um mundo caracterizado pela realização exterior?
Pois bem, na história da espiritualidade cristã, uma poderosa ideia moldou toda uma geração. O encontro com um Deus transcendente inevitavelmente nos conduz ao encontro com nós mesmos. Olhar para cima, por assim dizer, nos levará a olhar para dentro. Partindo dessa ideia, homens e mulheres, sob a luz do olhar divino empreenderam a mais fascinante e dura jornada que um ser humano pode fazer: mergulhar na interioridade, enxergar para além do rótulo, ver o que trazemos dentro de nós mesmos.
Evagrio Pôntico, um desses cristãos comprometidos com um estilo de vida apoiado mais no interior do que no exterior, aventurou-se, ousadamente e na companhia de Deus, a olhar para dentro de si mesmo. Desta experiência de vinte anos, ele descobriu a existência de “demônios” interiores. Na visão daquele sábio homem, demônios são compulsões do nosso ser, vícios da alma, coisas arraigadas e determinadoras do nosso comportamento. E eles operam invisivelmente em nossa vida! São como o sistema operacional de um computador, que “roda” no fundo da máquina sem ser visto, mas é o que dá forma ao que aparece na tela. Por sua sutil existência, trabalhando sob a superfície do nosso ser, esses demônios somente são percebidos pelo olhar atento daqueles que ousam cultivar uma vida interior. E, uma vez detectados precisam ser enfrentados e vencidos.
É aí que começa uma santa batalha para vencê-los. As armas para derrotar esses demônios são de caráter espiritual e psicológico. Trata-se tanto de um exercício para se conhecer a Deus como para conhecer a si mesmo – daí, que a chave desta vitória está na observação. Dizia o sábio Evágrio que devemos aprender a observar quem são as pessoas que agitam esses demônios interiores e descobrir quais são as circunstâncias nas quais eles se atiçam. Por isso, não basta enxergá-los; precisamos é lutar contra eles. Mas isso requer coragem e uma inquebrantável vontade de derrotá-los, por mais feios que sejam.
Evágrio disse que eles não resistem a uma coisa: a espada do Espírito, a palavra de Deus quando soprada poderosamente dentro de nós! Ela, com sua força, combate poderosamente esses demônios, trazendo luz em meio à escuridão. Se, de fato, todos temos demônios interiores que determinam a maneira como nos comportamos, destroem nossos relacionamentos e moldam nosso jeito de falar, ver e interpretar a vida, não seria óbvio que reconhecê-los e lutar contra eles fosse uma tarefa das mais preciosas na nossa existência? Todavia, como reconhecê-los, se todos estamos ocupados demais com nossa exterioridade, com aquilo que se dá fora de nós, sem nos darmos conta do que acontece em nosso âmago? Neste contexto, precisamos então nos deixar moldar por essa poderosa ideia de cultivar a interioridade. Sem o resgate de uma vida interior, estaremos presos às coisas externas, e o pior: continuaremos a ser escravos de senhores invisíveis, de forças interiores que controlam sorrateiramente nossa vida.
É tempo de parar para estar com Deus, de comer e mastigar sua Palavra e deixar seu poder medicinal lutar contra nossos demônios interiores. Assim, nos tornaremos transparências vivas, gente por quem passa a luz do Senhor, iluminando e transformando tudo ao redor. Olhar para dentro e lutar contra os demônios interiores, que poderosa ideia!

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Eduardo Rosa Pedreira é pastor presbiteriano, mestre e doutor em Teologia pela PUC-RJ e líder da Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca, no RJ.

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