Distraídos

"A fim de poderdes dedicar-vos ao senhor sem distração alguma" (I Co 7.35).

O mundo tem se tornado, muitas vezes, um ambiente caótico. Poderia dizer que “só não percebe quem não quer... ou, quem está distraído. E creio que este ambiente caótico e a intensidade com que ele acontece, tem contribuído decisivamente para adoecer-nos emocional, psíquica e espiritualmente.
Isso porque “distração” em um de seus significados pode dizer respeito a entretenimento, passatempo, divertimento ou recreação, e aí não há mal algum. Todos nós precisamos e devemos apreciar momentos que podem nos proporcionar condição de descanso, de refrigério, de descontração, de refazer as energias, de renovar a própria alegria, um bem tão precioso.
Mas a distração pode também dizer respeito a esquecimento ou inadvertência.

Pode trazer transtornos ao convívio com as outras pessoas e até dificuldades no ambiente de trabalho, no ambiente doméstico, ou no contexto estudantil.
Li um artigo do escritor e jornalista americano Adam Hochschild (nascido em 1942), que também é professor da Escola Superior de Jornalismo na Universidade da Califórnia (Berkeley) sobre “Como remover distrações no local de trabalho e aumentar a produtividade no ambiente de trabalho virtual”. Diz ele: “O trabalho é duro; distrações são abundantes; e o tempo é curto”.
Portanto, o primeiro passo é identificar os fatores de distração: Pode ser excesso de comunicação (muitos telefonemas, emails, redes sociais). Pode ser o excesso de navegação na Web, onde uma simples busca pode transformar-se na perda excessiva de tempo e distração.
Pode ser um ambiente de trabalho barulhento e que dificulte a concentração. E, ainda, a falta de planejamento e organização pode ser um facilitador da distração. Aliás, não se esqueça: “Disciplina é a ponte que faz a ligação entre os seus alvos e suas realizações”.
O ambiente doméstico é, normalmente, repleto de fatores de distração. Tente concentrar-se e, via de regra, diversos fatores irão interferir para que isso não aconteça: alguém o chama ao telefone; o serviço de entregas aparece; sua criança passa a exigir sua atenção; alguém lhe lembra que há algo precisando de uma manutenção; ou seja, a probabilidade de situações assim acontecerem é grande.

Se nos voltarmos para o ambiente estudantil, podemos facilmente identificarmos uma geração jovem altamente absorvida pela tecnologia digital.
Não dá para negar inúmeros benefícios que as tecnologias digitais tem trazido a nova geração. A grande indagação diz respeito a como esses cérebros vão funcionar diante dessa tecnologia?
Um professor da Escola de Medicina de Harvard e diretor-executivo do Centro de Mídia e Saúde Infantil em Boston, USA (Michael Rich) disse: “Uma conseqüência do impacto da tecnologia nos jovens é o risco de desenvolver cérebros incapazes de manter sua atenção em algo. Seus cérebros são recompensados não por se concentrarem em uma tarefa, mas por saltarem para a próxima”.
Creio que o desafio está em como lidar com esses dois mundos – o virtual e o outro com as exigências da vida real. No livro “Transforme seu cérebro, transforme sua vida”, Daniel G. Amen trata a distração, quando se apresenta de uma forma intensa, como um dos fatores presentes no “Distúrbio de Déficit de Atenção/Hiperatividade”.
A distração, diz ele, fica evidente em muitos locais diferentes para uma pessoa com DDA. Na classe, durante reuniões, ou enquanto ouve um parceiro, a pessoa com DDA tende a perceber outras coisas que estão acontecendo e tem dificuldade em se concentrar na questão que está sendo tratada.
As pessoas que têm DDA tendem a olhar pelo quarto, desligar-se, parecer aborrecidas, esquecer-se de para onde vai a conversa e interrompê-la com uma informação totalmente fora do assunto. A distração e o pequeno âmbito de atenção podem também fazer com que elas levem muito mais tempo para completar seu trabalho.

Finalmente, ainda há a distração no sentido de falta de atenção e de irreflexão.
Num mundo tão cheio de ruídos e barulhos, são muitos os fatores que procuram distrair nossa atenção. A superficialidade, a falta de compromisso, a fidelidade, a lealdade, as pressões, as dificuldades de relacionamento, as dificuldades financeiras, a influência muitas vezes perversa dos meios de comunicação, tem contribuído de forma profunda para a falta de atenção ou para a falta de reflexão (irreflexão) sobre princípios e valores que possam dar significado à nossa existência.
Até mesmo a religião pouco tem contribuído para transformar essa realidade: “A religião como distração é sempre mais atraente, mas também é menos verdadeira” – Eugene Peterson, em “Um pastor segundo o coração de Deus” – Ed Textus – pág 106.
As pessoas andam distraídas, manifestando um profundo déficit de atenção com respeito à sua afetividade. Ama-se um amor sem o toque, o elogio, o apreço, a honra, a palavra encorajadora. A distração do Rei Davi resultou em um adultério, em um homicídio, e na morte de uma criança inocente.

Nossa distração tem custado o fim de relacionamentos, de famílias, de sonhos.
Esse déficit de atenção também diz respeito à moralidade. Temos andado tão distraídos com esse princípio, que não nos importamos mais com o que nossos olhos cobiçam. Não nos importamos com os valores que são introduzidos sutil ou abertamente pelos meios de comunicação dentro de nossos lares. Ghandi dizia: “Eu não permitirei que ninguém ande por minha mente com os seus pés sujos”.
Temos andado distraídos de tal forma, que pouco interesse e valor damos a nossa espiritualidade.
Não me refiro a práticas religiosas, mas a uma experiência real com Deus, que se traduza nas virtudes morais de Cristo no caráter do homem: a justiça seja desejada; o amor seja expresso; a retidão seja uma atitude; a humildade, a mansidão, a bondade, sejam virtudes cultivadas em nós e a partir de nós, transformando-se em um estilo de vida exterior.
Voltar-se para Deus, sem distração alguma, é a recomendação do apóstolo Paulo.
Que Deus o abençoe rica e abundantemente,
Em Cristo,
______________
Pr. Hilder C Stutz

Comentários

Postagens mais visitadas