Inspiração e consagração

Apesar de estar muito longe de ser um artista, arrisco afirmar que uma obra de arte se constrói a partir de inspiração e consagração. Inspiração é o dom que vem do alto, é talento puro, criatividade que não se aprende ou se imita; é o insight, luz que transforma as trevas da mesmice, é a habilidade de improvisar.
Inspiração é o dom que o criador deu ao ser humano de construir algo belo e digno de admiração. É a capacidade de transformar sucata em artesanato, de visualizar uma escultura em uma pedra bruta, de fazer versos e poemas de palavras que nada dizem em si mesmas. Por sua vez, consagração é trabalho duro e suor, dedicação e sacerdócio, renuncia e apego.
Consagração é a sustentação da inspiração. Por trás de tudo que, legitimamente, se pode chamar de arte está uma história de dedicação e determinação. A inspiração é uma matéria bruta que precisa ser lapidada pela consagração. Idéias brilhantes sem trabalho duro é combustível para a frustração, decepção e presunção.
Dever-nos-ia impressionar que o primeiro retrato de Deus nas Escrituras é o de criador, artista e artesão. O bara’ (Ele criou) de Deus fez que o visível viesse a existir das coisas que não aparecem (Hb. 11:3), pela primeira vez a centelha da inspiração aflora no tempo e espaço. Além disso, cada etapa da criação é um Ki- tôbh (que bom), sua conclusão faz romper uma exclamação de admiração e realização: Hinneh tôbh me’odh (Veja, olha!!! É muito bom)!
No entanto, o relato da criação não aponta apenas para a inspiração e beleza, mas para um esforço árduo! Talvez alguns se escandalizem com esta possibilidade, pois entendem que Deus jamais precisa empreender esforços já que é todo-poderoso. Entretanto, devíamos prestar atenção no fato de que a narrativa da criação termina com Deus vivenciando o shabhat (cessou/descansou).
O estudioso Hans Walter Wolff sustenta que a idéia de descanso referente ao sétimo dia é acentuada à luz de Ex. 20:11 com o verbo vayyanah [imperfeito do verbo nûah] traduzido por descansou e Ex. 31:17 em que se acrescenta vayinnaphash [imperfeito do verbo naphash] que tem o sentido de “respirou aliviado”. Segundo o autor, o “repouso de Deus pode significar duas coisas:
1) Ele pode repousar, pois toda a obra, tudo o que o ser humano precisa está consumado; e 2) a ampliação “Ele respirou”, “Ele se refez”, ainda insinua, com um leve antropomorfismo: Ele precisa descansar, esgotou-se em sua obra da criação. Isto se pode entender plenamente apenas no “esgotamento” do crucificado: tetélestai, “está consumando” (Jo. 19:30).” (Wolff, 2007, p.215).
Portanto, a meu ver, se bara’, que os teólogos entendem como criar da nada, é a melhor definição de inspiração, confirmada por Ki- tôbh, shabhat é a melhor definição para consagração.
Assim, a criação de Deus resume a primeira grande expressão de beleza e esforço, de inspiração e consagração, que encontra sua plenitude na beleza do amor e entrega de Cristo na cruz!
Por isso, entendo que a betsalmenû (nossa imagem) e kidhemûtenû (nossa semelhança) de Deus em nós nos desafiam a fazer nosso trabalho como artistas e artesões, pois somente assim nos tornamos digno de nossa vocação e vivenciamos o significado pleno de fazer tudo para a glória D’Ele. Por esta razão, os missionários, os pregadores, professores, evangelistas, músicos, ou seja, quem constrói e serve ao criador, precisa conjugar inspiração e consagração.
O Senhor nos chamou para edificarmos comunidades de artistas e artesões, Seu maior projeto é construir vidas. A vida e obra de Jesus é modelo que encarna este propósito e projeto de Deus, nele unção e missão encontram expressão e equilíbrio. Nas palavras do apóstolo, inspirado e consagrado, Deus nos predestinou “a fim de sermos para louvor da sua glória....” (Ef.1: 6,12,14).
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[ O prof. Israel Sifoleli leciona Teologia Antigo Testamento e Hebraico na FLAM]

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