Tenho medo de realmente me conhecer

Em geral, o autoconhecimento nos traz desconforto. Eis porque muitas pessoas vivem escondidas atrás de máscaras para que os demais não descubram as desconfortáveis verdades que elas já descobriram sobre si mesmas. Conhecer-se não é nada lisonjeiro.
Com freqüência, esquivamo-nos do que não apreciamos em nosso íntimo, condenando outras pessoas exatamente pela mesma fraqueza. É aqui que a oração interrompe todas as nossas pretensões. A oração é o espelho da alma, e nela nos vemo mais claramente. Mark Twain costumava dizer que há, pelo menos, uma coisa em favor da oração: não podemos mentir enquanto oramos. Se nossas mães pareciam dispor de radares sensoriais para rastrear todos os nossos subterfúgios quando éramos crianças, quanto mais o Deus onisciente, que conhece cada pensamento nosso!
Agostinho, um dos grandes pais da igreja, tinha total consciência disso. Ele escreveu suas Confi ssões, na qual expôs sua vida pregressa de luxúria, enquanto era bispo. Para ele, ser bispo da igreja não era um disfarce para acobertar a sua verdadeira identidade perante Deus. De fato, o que originalmente atraiu a atenção de Agostinho foi a voz de Deus que lhe veio enquanto estava sentado em um jardim. A voz assegurou-lhe, mencionando um versículo do livro de Romanos: Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e uma rocha que faz cair; e aquele que nela confi a jamais será envergonhado (9.33).
O autoconhecimento que adquirimos por intermédio da oração requer humildade. Anselmo, o grande estudioso medieval, expressou o agonizante dilema que todos sentimos quando nos aproximamos de Deus com plena consciência do que somos:

Ó doloroso dilema! Se olhar para mim mesmo, não consigo tolerar-me. Se não olhar, não consigo encarar-me. Se considerar a mim mesmo, minha própria face me atemoriza. Se não considerar, serei enganado por minha condenação. Se eu ver a mim mesmo, o horror é intolerável. Se não ver, a morte é inevitável.

A humildade é o realismo moral. Ao encararmos as realidades do pecado humano, nos postamos diante da justiça e da santidade de Deus. A Física e a Química podem ser as disciplinas apropriadas para compreender a matéria, mas a humildade é o verdadeiro caminho para qualquer um compreender a si mesmo. Ao tomarmos consciência de que o mundo dos negócios ou o ativismo é um falso obstáculo a uma vida de oração, também descobrimos que a humildade é “o constante esquecimento de nossas próprias realizações”, como expressou João Clímaco, no século VII.
Assim, o que a palavra humildade significa? Ser humilde é termos consciência de nossa própria fraqueza moral, nossa incapacidade diante da presença do maligno em nossa vida. Significa também que lamentamos por esta nossa condição e desejamos nos voltar para Deus. Em contraste, o orgulho bloqueia a oração, exatamente como na famosa parábola de Jesus sobre o fariseu e o publicano. Jamais aprenderemos a orar se nossos pensamentos são: Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, como a oração do fariseu.
Pelo contrário, a oração exige nudez espiritual diante de Deus, quando reconhecemos nossa culpa e recomeçamos nossa vida. Tal atitude demanda uma honesta descrença em nosso próprio sentido de realização, juntamente com um desejo de aprender de Deus, em especial por meio da Bíblia.
Bernardo de Clairvaux argumentou que a comparação é o primeiro passo em direção ao orgulho. Na oração, pode ser fácil olharmos para os lados, comparando-nos com outras pessoas, cheios de orgulhos, exatamente como o fariseu, na parábola contada por Jesus. E, ainda assim, isto é o oposto do que a verdadeira oração deveria ser. Orar é determinar-se a estar sozinho perante Deus, sem galerias a observar nossa atuação e sem comparações a nos distrair.
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James M. Houston. A oração - Aprofundando a sua amizade com Deus. Brasília - DF: Editora Palavra, 2007, pp. 28 e 29. www.editorapalavra.com.br

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