PREFÁCIO DO LIVRO: A BASE DA UNIDADE CRISTÃ (D. MARTYN LLOYD-JONES)

Recentemente me pediram para apresentar uma lista dos 10 livros cristãos que mais influenciaram a minha vida. Mencionei os nomes de Jonathan Edwards, João Calvino, Agostinho, Lutero, John Stott, John Gerstner, Pascal, Thomas Brooks e D. Martyn Lloyd-Jones.
Mais uma vez fui levado a me lembrar do fato de que a minha dívida para com o último nome desta lista é incalculável. Eu tive que incluir na relação de obras clássicas, que determinaram todo o curso da minha vida e ministério, as exposições completas tanto de Efésios quanto de Romanos (considerando os 8 livros de Efésios e os 14 de Romanos como se fossem apenas duas obras distintas), feitas pelo maior expositor bíblico do século XX.
Essas mensagens foram entregues durante o tempo do seu ministério no púlpito da Westminster Chapel, em Londres. Posteriormente, transformaram-se, por meio de todo um trabalho de transcrição, em livros. Obras que hoje se encontram nas bibliotecas de pastores do mundo inteiro.
O que falar, no entanto, de Pregação e Pregadores, O Sermão da Montanha, Discernindo os Tempos, Os Puritanos, Avivamento, fora as lições extraídas da sua própria vida, encontradas nos 2 volumes da sua biografia autorizada escrita por Iain Murray? E me lembrei, ao redigir o meu “cânone” da literatura cristã, o quanto os livros de D. Martyn Lloyd-Jones que tive o privilégio de ler e reler várias vezes, em tantas ocasiões, me levaram às lágrimas da mais profunda percepção da realidade espiritual.
Qual a razão desse amor pelo grande pregador galês? Por que quando prego penso sempre na forma como ele pregava, lidava com o texto inspirado e se relacionava com o auditório? Por que deliberadamente tenciono imitá-lo? O que tem me levado a recomendar para os estudantes de teologia e candidatos ao ministério sagrado que dêem prioridade à leitura das suas obras?
Muito poderia falar. Penso, contudo, que uma resposta basta: o fato de ele ser bíblico. Eu creio que a Bíblia é a Palavra de Deus. Toda a minha filosofia de história, meu conceito do homem, minha forma de ver a Deus e a minha mais profunda esperança nesse vale de lágrimas que nos encontramos estão estribados nas Escrituras Sagradas.
Quando penso no meu trabalho como pregador, no ato de me colocar de pé para pregar para seres humanos - homens e mulheres que humildemente tomaram a decisão de se dirigir a uma igreja, sentar e ouvir um mortal que ousa falar em nome do Criador dos céus e da terra - lembro-me invariavelmente de que a autoridade do arauto de Deus é derivada da autoridade das Sagradas Escrituras. Esse homem só deve ousar falar porque tem uma mensagem que lhe foi entregue para proclamar.
Pessoas só devem ouvi-lo por ele se ater ao exercício de tão somente passar adiante a mensagem que lhe confiada e que consta nessa Palavra bendita revelada e registrada de modo inerrante. Logo, haverei de amar a pregação de um homem que não ousava falar sem ter um texto bíblico perante os seus olhos, o qual expunha com absoluta fidelidade, tanto ao seu contexto imediato (teologia bíblica) quanto ao seu contexto mais amplo (teologia sistemática).
A partir daí tudo fluía, associado a uma raríssima sabedoria, temor de Deus, encanto pelo evangelho e graça para pregar. Homens como J. I. Packer e John Stott já tiveram oportunidade de confirmar algo análogo ao que declaro.
Com ele aprendi a equilibrar doutrina, experiência e prática. Um cristianismo que seja ao mesmo tempo doutrinário, permeado por experiências com Deus e capaz de se manifestar de modo concreto na vida. Uma fé que atinge a mente, o coração e a vontade. Ilumina o intelecto, desperta as afeições santas e dirige o desejo.
Sua ênfase em doutrina merece destaque. Vivemos dias em que o aspecto doutrinário do cristianismo tem sido frequentemente negligenciado. As verdades pelas quais homens e mulheres deram suas vidas no passado são hoje banalizadas por uma geração que não conhece sua própria fé.
Se houve uma época em que a preocupação com a pureza doutrinária levou a igreja a negligenciar o amor capaz de ver realidade onde não há perfeição intelectual, hoje vivemos um tempo em que a igreja supostamente preocupada com o amor negligencia a verdade, tencionando ver realidade onde a imperfeição intelectual representa a negação da própria fé no que ela tem de fundamental.
Pessoas se dirigem para o local de culto não para pensar, mas para ter uma experiência mística desconectada daquilo que é capaz de ao mesmo tempo avaliá-la e lhe dar conteúdo. Nunca houve tanta preguiça intelectual na igreja.
Numa sociedade profundamente pluralista o caráter absoluto da doutrina também tem sido negligenciado. Teólogos e pastores adaptam seu discurso aos caprichos de uma audiência avessa a uma pregação direta, franca, objetiva e que chama a virtude de virtude, o pecado de pecado e a heresia de heresia. Por isso cristãos se parecem tanto com não cristãos. A igreja não passa do púlpito. Pregação difusa gera crentes sem fibra – massa mole nas mãos de uma cultura pronta para lhes dar o formato que lhe aprouver.
Em A Base da Unidade Cristã, Martyn Lloyd-Jones ressalta o lugar da doutrina na busca da unidade da igreja. Este é um dos assuntos nos quais a verdade bíblica tem sido mais negligenciada. Alguns parecem tão marcados pelo divisões injustificadas do passado (que alijaram da igreja crentes verdadeiros), que na busca da unidade esquecem-se dos erros doutrinários injustificados do passado (que atraíram para a igreja falsos crentes). Em nome do amor descaracterizam por completo a fé que encontra-se sob a custódia de quem é chamada na Bíblia de “coluna e baluarte da verdade”. Igreja que desde os seus primórdios foi ensinada a considerar maldito aquele que, ainda que com aspecto angelical, prega outro evangelho, ou evangelho que vai além daquele que foi pregado pelos apóstolos.
Martyn Lloyd-Jones chama a atenção da igreja para esse erro fundamental: a unidade artificial, que não resulta da presença do Espírito da verdade, no poder da verdade, no coração de homens e mulheres. Estimulo de coração a leitura desse livro. Se compreendermos a sua mensagem, vamos aprender a diferenciar divisão de cisma. O cisma é sempre pecaminoso, pois representa cristãos se dividindo sem que haja uma justificativa para a quebra da comunhão. Já a divisão nem sempre é pecaminosa, pois pode representar a integridade intelectual e espiritual de homens e mulheres que, devido ao compromisso com o evangelho, tem que se afastar de uma igreja que apostatou da fé. A leitura de mais essa obra do “doutor” nos conduzirá a tratar o que nos separa uns dos outros com doçura, mas sem jamais cedermos um milímetro no que tange a verdades sobres as quais a igreja está fundamentada.
Não deve haver espaço na igreja para divisões que resultam de contenda entre personalidades vaidosas e meticulosidade doutrinária. Nos dividirmos por causa da fome e sede de poder de líderes que querem ocupar o lugar de Cristo na igreja é obsceno. Nos esquecermos de que “até agora não surgiu nenhuma forma de pensamento tão perfeita a ponto de ser subscrita por todos os homens cultos” é tolice e desconhecimento do desenvolvimento gradual da reflexão teológica da igreja.
O que não podemos permitir, contudo, é que o exato oposto dos erros acima expostos ocorram no seio da igreja. Em vez de homens vaidosos, homens que em nome da humildade não afirmam o que crêem e toleram quem destrua uma fé que, precisa ser preservada em todas as suas partes essenciais a fim de que sua beleza possa ser apreciada por aqueles que receberam olhos para ver. No lugar da meticulosidade teológica, o acanhamento teológico que permite que verdades essenciais sejam negociadas em nome de uma unidade que insulta os céus, afasta os Espírito Santo das nossas assembléias, enfraquece o nosso testemunho e empobrece a nossa vida.
Martyn Lloyd-Jones teve que pregar num período de forte pressão ecumênica. Como poucos sonhou com uma unidade cujo alicerce fosse a verdade. Uma união de cristãos que fosse o resultado natural do amor de homens e mulheres pelas mesmas coisas – certas verdades – que quando cridas e amadas inevitavelmente nos une uns aos outros, pois quem é levado a crer nessas mesmas verdades e amá-las, é habitação de um mesmo Espírito, que a estes regenerou e batizou no corpo de Cristo.

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