Controlando sua raiva - Artigo para a Revista Lar Cristão de fev. de 2010

· Abordando o aspecto da raiva:
Acredito que primeiramente há a necessidade de definir o termo raiva. Alguns dicionários trazem a definição como a privação de raciocínio lógico, a falta de calma, distúrbio do equilíbrio emocional. A raiva é um sentimento de protesto, insegurança, t
imidez ou frustração, contra alguém ou alguma coisa, que se exterioriza quando o ego se sente ferido ou ameaçado. A intensidade da raiva, ou a sua ausência, difere entre as pessoas (Http://pt.wikipedia.org/wiki/raiva).
Olhando para raiva nas Escrituras Sagradas percebemos logo no inicio da criação, após a queda, este sentimento no coração humano. Caim irmão de Abel é o primeiro exemplo de raiva. A pergunta é objetiva que Deus faz a ele: Então o Eterno disse: Por que você está com raiva? Por que anda carrancudo? 7 Se você tivesse feito o que é certo, estaria sorrindo; mas você agiu mal, e por isso o pecado está na porta, à sua espera. Ele quer dominá-lo, mas você precisa vencê-lo (Gênesis 4:6-7).
As Escrituras tratam a raiva como algo que por natureza é ligada ao ser humano. Não há quem não fique com raiva e isso é natural. Mas quando ela não é dominada, poderá nos levar a condições físicas, mentais e espirituais desfavoráveis. Depois voltaremos ao exemplo de Caim.

· Como a raiva surge:

A raiva pode ter diversas origens e isto acontece evidentemente por causa do problema interno dentro de todos nós, aquilo que chamamos de depravação total. Lembrem-se do texto de Mateus 15.18 a 20: Mas o que sai da boca procede do coração; e é isso o que contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas as coisas que contaminam o homem; mas o comer sem lavar as mãos, isso não o contamina.
Há um processo terrível dentro de nós como seres humanos. Pensamos e praticamos ações terríveis que produzem raiva na vida como:

· Inveja: Uma pessoa pode sentir raiva de outra pelo fato desta ter algo que aquela gostaria para si. E pelo fato de não possuir os recursos necessários para adquirir algo que deseja, ela começa a sentir raiva de quem têm. Então a pessoa tem um carro BMW e uma outra vê aquilo e sente raiva por não poder ter. E alguém até diz: por ele tem e eu não? Há quem diga que por isso a inveja mata.

· Ego: Uma pessoa pode sentir raiva de outra pelo fato de ter afrontado ou ridicularizado o seu ego. A raiva, neste caso, é uma tentativa de proteção ao se impor uma postura agressiva diante da afronta. Bem, para não citar exemplos de outros, falo de mim mesmo. Confesso que já passei por este processo. Um dia alguém me chamou de burro, isso mexeu com o meu ego. O primeiro sentimento imediato que veio sobre mim, foi a raiva. Queria engolir aquela pessoa!

· I
nstinto de superioridade: alguém que no seu íntimo tem a falsa percepção de superioridade em relação aos demais, quando se vê numa situação em que não é compreendida ou aceita como gostaria, o sentimento q ue surge é a raiva. E ela funciona como mecanismo de evasão dos seus instintos violentos, afligindo a todos que se encontram ao seu lado. Por isso, algumas vezes vemos pessoas perdendo a postura e o equilíbrio por coisas absolutamente simples.

· A f
amília: Pode ocorrer quando os pais não dão a devida atenção aos filhos, se desinteressando pelos problemas que venham a afligir a prole. Inconscientemente o indivíduo começa a se ressentir, o que ao longo dos anos pode gerar raiva acumulada. Há muitos filhos que estão doentes e emocionalmente abalados por anos, porque reprimiram esta raiva dentro de si mesmos. Foram palavras ditas pelos pais, desprezos, abandonos. Conheço uma pessoa que foi abandonada pelos pais. Quando converso com ela em atendimento pastoral e tenho de tocar no fato, o sentimento dela é de choro e com muita raiva. Ela passa um tempo profundo de pesar por causa da condição passada. E o sentimento forte é sempre da raiva.

· O que a raiva gera:

A raiva é um sentimento dentro de nós que sem haver controle vai corroendo de dentro para fora, e com toda certeza ela causa diversos prejuízos físicos, mentais e espirituais para a pessoa.
Como conseqüências da raiva podemos ter:

· A v
iolência verbal: várias pessoas não sabem lidar com a raiva e são extremamente agressivas. Por isso, alguns maridos brigam com as esposas e expressam agressões verbais que humilham e colocam a pessoa no lixo existencial.
· A v
iolência física: principalmente nos homens acontece isso. Alguns ficam tão raivosos que quebram tudo pela frente, espancam as esposas e até os filhos.
· Ó
dio: que consiste numa ênfase de raiva, que geralmente dura mais tempo e acompanha um desejo contínuo de mal a alguém. Não queira conviver com uma pessoa que é consumida pela raiva acompanhada de ódio.
· Comportamento agressivo: ele se dá quando o indivíduo assume uma postura contínua de mau h
umor e raiva, pode ter sua origem em pequenas frustrações que no decorrer da vida se acumulam e que não foram superadas através de diálogos compreensivos e do perdão ao próximo e a si mesmo.
Em diversas situações podemos perceber que a raiva de alguma maneira sempre está presente. E nelas reagimos de várias formas. Porque alguns têm pavio curto, alguns perdem o controle, xingam, brigam, batem, quebram objetos e depois se arrependem
E muitos não conseguem controlar seus impulsos agressivos e têm dificuldade de lidar com a raiva. Como já exemplifiquei quero trabalhar um pouco a vida de Caim dando no final algumas dicas para termos cuidado com este sentimento que é interno e que gera efeitos externos na nossa vida.

Olhando para o contexto de Gênesis percebe-se que os capítulos 4 e 5 mostram a conseqüência do pecado sobre a raça humana, não apenas sobre os nossos primeiros pais, Adão e Eva, mas, sobre a sua descendência direta. A começar pelos filhos do primeiro casal e o mau exemplo, conduta e ensino que já se estende para gerações.
Quando examinamos o relato bíblico do primeiro homicídio, observamos que a raiva se encontra na raiz daquela primeira quebra dos mandamentos divinos. Paradoxalmente, tudo começa num contexto espiritual ou religioso. Dois irmãos, Caim e Abel se apresentam ao Senhor com suas ofertas. Deus se agrada da oferta de um e rejeita a do outro.
A verdade é que o texto não indica a razão e apenas se limita a sugerir que Caim, não havia procedido bem (Gênesis 4.7). Mas, o texto revela que a inveja diante da aceitação da oferta de Abel progride dando lugar à ira e a raiva.
Caim vai dormir irado e acorda com muita raiva no coração. Ele toma suas refeições com raiva e desenvolve suas atividades profissionais com ela. Esta é uma realidade observável. Ela se expressa no estado de espírito e no semblante deste rapaz. A pergunta de Deus a ele é: Por que andas irado? (Gênesis 4.6b).
Caim teve inveja de seu irmão (Gênesis 4.4b-5b) e isto gerou raiva dentro dele. Ele foi então dominado pela raiva e ira. O que resultou com esta atitude?

· Coração envenenado: ele não dormia com o pensamento e atitudes de raiva. Talvez perguntasse: por Deus aceitou a oferta deste bobo e não a minha? Por que ele e não eu? Por que se o meu trabalho foi mais árduo do que o dele? Caim maquina o mal dentro de si mesmo.

· Vazão para a depravação interna: a Bíblia nos ensina que o pecado destrói reputação, moral e a nossa paz. O pecado desnuda outros problemas humanos pervertendo o coração e faz o ser humano perder a sensibilidade diante de Deus. O pecado é uma raiz terrível que gera solidão, inquietação e separação da comunhão com Deus e vergonha profunda em nosso interior. Como diz um autor que gosto demais:

"O pecado é a cegueira e a surdez diante de Deus. Então, tomemos cuidado, porque ele nos faz ficar cegos em relação ao coração de Deus. O pecado é a culpa pela quebra do Shalom" (PLANTINGA, Cornelius Jr. Não era para ser assim. Um Resumo da Dinâmica e Natureza do Pecado. São Paulo: Cep, 1998, p. 17).

O pecado brotou sentimentos que saíram da página interna de Caim e o sentimento de homicídio tomou conta do seu coração. Ele não ficaria sossegado enquanto não resolvesse aquela raiva em relação a seu próprio irmão Abel.
O resultado de tudo vocês já sabem. Ele acabou matando o seu próprio irmão do coração por causa de um sentimento que o dominou: a raiva.
Isto é algo para nos preocupar hoje. Porque se não aprendermos a controlar os nossos sentimentos internos em relação a raiva, podemos cometer atos terríveis para com as pessoas que andam conosco. Assim deixo algumas dicas para controlarmos a nossa raiva e trabalharmos com graça diante de todos os obstáculos que enfrentarmos na vida:

- Se afaste das disputas:

As nossas relações são mais importantes do que qualquer coisa. Para manter estes relacionamentos, necessitamos afastar urgentemente de nós as disputas da nossa vida. A Bíblia nos ensina que somos criação de Deus e de maneira única.
Temos personalidades e temperamentos diferentes. Então não deveríamos nos surpreender quando nos irritamos uns com os outros. Mas, se alguém não concordar com a nossa posição ou opinião, não podemos ficar bravos e raivosos. Porque esta atitude ganhará peso e fatalmente entraremos em disputa. Porque sempre desejaremos mostrar que temos a melhor idéia e a melhor alternativa para detalhes da vida.
Como diz Joel Osteen no seu livro:

“É preciso ter a maturidade para conviver com alguém que é diferente de você. Exige paciência não começar uma disputa sobre questões menores ou ficar facilmente ofendido. Se o objetivo é manter disputas fora da nossa vida, então precisamos aprender a dar às pessoas o benefício da duvida. Precisamos passar por cima de algumas coisas. Toda pessoa tem falhas, todos temos fraquezas (OSTEEN Joel O que há de melhor em você - desenvolva seu potencial e realize seus maiores sonhos. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2008, p. 162).

As Escrituras nos ensinam que o amor faz concessões às fraquezas das pessoas. O amor cobre falhas. Não é por acaso que Paulo disse algo profundo para a igreja de Roma: Ora nós, que somos fortes, devemos suportar as fraquezas dos fracos, e não agradar a nós mesmos (Romanos 15.1). E no versículo 2 ele diz mais: Portanto cada um de nós agrade ao seu próximo, visando o que é bom para edificação.
Quando ignoramos as fraquezas dos outros e não trazemos conflitos dando vazão à raiva, plantamos as sementes pela graça para que Deus trabalhe sobre outra pessoa. Assim olhamos mais cuidadosamente para o que Paulo diz em Filipenses 2.3-5: Nada façais por contenda ou por vanglória, mas com humildade cada um considere os outros superiores a si mesmo; não olhe cada um somente para o que é seu, mas cada qual também para o que é dos outros. Tende em vós aquele sentimento que houve também em Cristo Jesus.

- Domine o sentimento da raiva ao invés de se entregar a ele:

As conseqüências advindas da raiva geram: instabilidade familiar, sensível piora do convívio cotidiano, perda de emprego, exclusão familiar e escolar, dificuldade nos relacionamentos interpessoais, problemas financeiros e hospitalizações decorrentes de lesões geradas em brigas ou acidentes.
Olhando de novo para o nosso exemplo Caim, percebemos que ele complica por inteiro a sua vida. E na conversa que Deus tem com ele antes de cometer o homicídio é um alerta. Deus avisa Caim dizendo-lhe: Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá–lo (Gênesis 4.7b).
Era para Caim ouvir a orientação do Senhor através do cuidado com a sua consciência. Vemos que há dois caminhos ou duas possibilidades para a pessoa envolvida com a raiva: proceder bem e ser aceito (usufruir a bênção e paz de Deus) ou proceder mal e colher as conseqüências.
Aprendemos com a vida de Caim que nos deixar dominar pela raiva pode trazer sérias conseqüências, tais como: homicídio (Gênesis 4.8); mentira (Gênesis 4.9); negligência em relação ao próximo (Gênesis 4.9b); maldição atingindo diversas áreas da vida (Gênesis 4.12); afastamento de Deus (Gênesis 4.14,16) e os riscos espirituais para os descendentes (Gênesis 4.19 e 23).
A graça de Deus está sempre presente minimizando até os efeitos plenos do pecado. É importante notar que apesar desse pecado de Caim, é da sua descendência que procedem alguns artífices de ferro e bronze e os primeiros músicos (Gênesis 4.21 e 22).
Parece que não olhamos muito seriamente para os efeitos e falta de equilíbrio no detalha da raiva. Mas, Caim nos mostra o grande estrago que houve na sua vida e na vida do semelhante. Temos a graça da parte de Deus para tomarmos cuidado com a raiva. Um texto que é precioso demais é Pv.15.1: A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira.

- Cultive a simplicidade na vida:

François Fénelon disse algo singular para nós:

"Quando vivemos verdadeiramente na simplicidade interior, toda a nossa aparência é mais franca, mais natural. A verdadeira simplicidade nos faz conscientes de certa abertura, moderação, inocência, alegria e serenidade, o que é encantador quando o vemos de perto e continuamente, com olhos puros. Oh, quão amável é esta simplicidade! Quem ma dará? Por ela deixo tudo. Ela é a pérola do Evangelho” (FOSTER, Richard J. Celebração da disciplina. São Paulo: Vida, 2007, p. 121).

Richard J. Foster no seu livro diz que “simplicidade é liberdade. Duplicidade é servidão. A simplicidade traz alegria e equilíbrio. A disciplina cristã da simplicidade é uma realidade interior que resulta num estilo de vida exterior. Tanto o aspecto interior como o exterior da simplicidade são fundamentais” (FOSTER, 2007, p. 121).
Quando experimentamos a realidade interior da simplicidade, ela nos liberta exteriormente. É exatamente o que percebemos no pedido do escritor sábio de Provérbios: Duas coisas te peço; não mas negues, antes que morra: Alonga de mim a falsidade e a mentira; não me dês nem a pobreza nem a riqueza: dá-me só o pão que me é necessário; para que eu de farto não te negue, e diga: Quem é o Senhor? Ou, empobrecendo, não venha a furtar, e profane o nome de Deus (Provérbios 30. 7-9).
O sábio pede para que Deus alongue dele a falsidade e a mentira. Depois ele pede para que Deus não lhe dê nem a pobreza nem a riqueza. Ele pede exatamente o pão que é necessário. Para que? Para que ele de farto não negue a Deus dizendo: Quem é o Senhor? E também na pobreza, ele não venha a furtar e profanar o nome de Deus.
Como precisamos de uma vida simples, uma vida de simplicidade que nos liberta para recebermos a provisão do eterno isso sem soberba, sem orgulho. Porque sem a simplicidade não sabemos reconhecer que tudo vem da bondosa mão do eterno. A realidade da simplicidade nos ajuda a fugir da soberba e da prepotência humana.
A realidade da simplicidade nos ajuda a buscar em primeiro lugar o Reino de Deus sabendo que no demais seremos sustentados na vida.
O que a simplicidade gera nós? A simplicidade envolve uma vida de alegre despreocupação com os bens materiais. Ela nos ajuda a viver pela graça todos os dias. Ela nos ajuda a depender de Deus para obter os mais simples elementos da vida: ar, água, sol.
Ela nos ajuda a perceber que aquilo que temos não é resultado de nosso próprio labor, mas do gracioso cuidado de Deus.
O resultado é que não damos espaço para a competição dentro de nós, porque o espírito que reina é o da simplicidade no coração. Daí, olhamos para os outros como superiores a nós, olhamos para os outros com um coração simples. Olhamos para os outros sem orgulho e soberba querendo ser os melhores.
Termino citando o velho apóstolo Paulo refletindo sobre quem ele era e quem Cristo era para ele: Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não da nossa parte (II coríntios 4.7).
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Alcindo Almeida: Ele é pastor da Igreja Presbiteriana da Lapa na cidade de São Paulo. Ele é casado com Erika de Araújo Taibo Almeida. É autor de vários livros pela Editora Fôlego. Ele é membro há 12 anos e diretor do grupo de apoio pastoral – Projeto Timóteo.
Skype: ajalmeida151
Twitter: @alcindoaja

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