Pular para o conteúdo principal

A esperança vence a desilusão - Ricardo Barbosa

Mesmo que as notícias piorem cada dia, eu ainda continuarei a ter a esperança de um dia ver este país ser governado por gente decente
Às vezes, me vem uma vontade enorme de chutar o balde! Penso em desistir, parar de lutar por um país melhor, sonhar com políticos altruístas, abnegados, que ajam como verdadeiros sacerdotes da nação. Minha vontade é de anular meus votos nas próximas eleições, pois ninguém os merece. Parece que o melhor, o mais sensato, é viver alienado, como muitos; não dar a mínima para a política, ignorar o país e cuidar da minha vida. Confesso que diante de situações como as que estamos vivendo, tudo isso me passa pela mente. Manter a esperança quando a gente se sente traído é como querer permanecer de pé com as pernas quebradas. Por mais que nos esforcemos, não dá – não há mais nada em que se apoiar. Então, sem a utopia que nos motiva, jogamos a toalha e nos entregamos ao cinismo, aquela descrença que toma conta da alma e nos rouba os sonhos mais nobres. Tais sentimentos passam por mim e chegam a me fazer considerar que este é, provavelmente, o melhor caminho. Mas, em algum momento, parece que enfrentam uma espécie de resistência interna. Eles não chegam a corromper totalmente meu coração e minha mente; lentamente, volto a me recompor e a reconsiderar a fonte dos meus sonhos e esperanças. Vejo então que elas não podem se sustentar num alicerce tão frágil e efêmero como o das ambições insanas pelo poder. O apóstolo Paulo, ao referir-se à fé de Abraão, disse que o patriarca “esperava contra a esperança”. Abraão cria numa promessa que, embora teoricamente impossível, lhe fora feita por Deus. As chances de acontecer aquilo que o Senhor lhe havia prometido eram mínimas – para dizer a verdade, nenhuma; mas ele creu, e sua fé lhe encheu de esperança. E o que dizer de Habacuque, um profeta de Deus preocupado com seu país e o futuro de sua gente? Aflito, ele perguntou a Deus: “Até quando, Senhor, terei que conviver com a injustiça e opressão?” A princípio, qualquer um esperaria uma intervenção divina eliminando a iniqüidade e trazendo de volta a retidão. No entanto, a resposta de Deus surpreende o profeta: os conflitos, ao invés de diminuírem, iriam aumentar. Ele, sem entender, prefere calar-se e permanecer atento ao que Deus iria fazer. Habacuque nos dá uma das lições mais preciosas sobre esperança. Diante da devastação, da corrupção, da injustiça e do sofrimento, ele não a perdeu. Na sua oração, o profeta diz: “Mesmo não florescendo a figueira, e não havendo uvas nas videiras; mesmo falhando a safra de azeitonas, não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral nem bois nos estábulos; ainda assim, eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação. O Senhor, o soberano, é a minha força; ele faz os meus pés como os do cervo; faz-me andar em lugares altos.” De onde Abraão e Habacuque tiraram sua confiança? Os fatos que presenciaram conspiravam contra qualquer esperança. Abraão não tinha motivos para acreditar que, em sua velhice, pudesse ainda ter filhos. Parecia coisa de lunático, projeção da sua carência. Da mesma forma foi com Habacuque. Esperar o quê? O exército dos caldeus estava marchando sobre sua terra. Anunciava-se uma devastação total, uma crise sem precedentes. No entanto, ambos creram na ação misteriosa e soberana de Deus. O apóstolo Paulo afirma que permanecia sempre disposto, cheio de esperança e trabalhando arduamente porque, mesmo que seu homem exterior – presenciando as circunstâncias políticas e sociais, a falência dos projetos humanos ou as limitações da ciência – sofresse os golpes fatais da desilusão, seu homem interior, aquele lugar onde a fé nutre a esperança, ia se renovando dia após dia. A crise moral, política e ética que vivemos hoje serve de alerta para nos fazer ver de onde temos alimentado a esperança. O slogan da campanha vitoriosa do presidente Lula dizia que “A esperança venceu o medo” e encheu muita gente de ânimo, Mas hoje, o medo e a desilusão rondam de novo a esperança. Olhamos para o futuro e não enxergamos nada; as possibilidades de mudança evaporaram. Na melhor das hipóteses, quem sabe, poderemos sonhar com um governo que seja mais esperto, que esconda melhor as tramas do poder, os caixas dois e os favores políticos. Talvez poderemos também sonhar com uma reforma política, destas para inglês ver, que servirá apenas para, mais uma vez, iludir eleitores sonhadores. Mas a esperança é nutrida pela fé, e não fé em um partido, um político com discurso moralista, religioso ou ideológico. Nossa esperança, hoje e sempre, é sustentada pela Palavra de Deus, pela certeza de que o Senhor reina e que conduz todos as coisas para o fim que ele mesmo determinou. É por causa dele e do seu Reino que continuamos a lutar incansavelmente até que haja justiça. É por causa da fé que podemos dizer como Habacuque – ainda que o poder continue corrompendo os mais nobres ideais; ainda que a maioria dos políticos não mereçam nossa confiança; ainda que malas de mensalões continuem circulando nos corredores do poder; ainda que a mentira permaneça na boca daqueles que juraram dizer só a verdade; mesmo assim, eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação. Não pretendo chutar o balde, muito menos me juntar aos alienados. Mesmo que as notícias piorem cada dia e o mercado dê sinais de agitação e intranqüilidade, ou ainda que aqueles em quem um dia eu confiei me decepcionem e os sonhos que um dia acalentei se frustrem, eu ainda continuarei a sonhar e ter a esperança de um dia ver este país ser governado por gente decente. Líderes que sejam servos do povo, que aspirem ao sacerdócio e não ao poder, que lavam os pés uns dos outros e não se curvam diante daqueles que oprimem e amam a iniqüidade e não a justiça. Continuo tendo esta esperança porque sei em quem tenho crido, e sei que somente nele minha esperança repousa.
Ricardo Barbosa de Souza é conferencista e pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasilia

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Estudo 26: A mulher sunamita: generosa e hospitaleira - (II Reis 4.8-37)

Há um cântico que nos ensina muito é o Salmo 37.4-5, a letra diz:
“Agrada-te do Senhor e ele fará aquilo que deseja o teu coração. Entrega o teu caminho ao Senhor, e o mais ele fará. Descansa no Senhor e espera nele. Pois, ele é a tua salvação, ele é o teu castelo e o teu refúgio na tribulação. Confia no Senhor e ele agirá, confia no Senhor e ele agirá“ [1].  É exatamente sobre essa providência de Deus na vida do seu povo que quero falar, usando esse exemplo da mulher sunamita. Esta que foi agraciada por Deus pela instrumentalidade do profeta Eliseu. Sabemos que o significado do nome de Eliseu é: Jeová é salvação. A meu ver combina com sua missão como profeta desse período. Ele foi um dos maiores profetas desse período juntamente com o seu antecessor, o profeta Elias. Ambos foram profetas no Reino do Norte de Israel. Eliseu era filho de Safate, habitava em Abel- Meolá do Vale do Jordão e pertencia a uma família próspera. Quando Elias estava no monte Horebe desanimado e triste, Deus fa…

Emoção X Razão: Mulheres agem de forma emocional, homens se comportam racionalmente

Recentemente li o livro Homens são de Marte, mulheres são de Vênus de John Gray. Ele diz que quando se aborrecem, os homens querem silêncio e solidão. Já entre as mulheres, as preocupações resultam na matraca desenfreada, pois, falando acalmam-se. O ego masculino é movido à base de conquistas, o feminino é pura emoção. Ele deve escutá-la, e ela deve compreender seu silêncio. Conclusão: marido e mulher não falam a mesma língua, não são do mesmo planeta. Na maioria dos processos normais, a mulher age de forma emocional, enquanto o homem se comporta de forma racional. Na nossa cultura costumamos dizer que os homens são insensíveis, durões e bem insensíveis. E com respeito às mulheres que elas são pura emoção e coração. John Gray diz que “quando os homens e mulheres são capazes de respeitar e aceitar suas diferenças, então o amor tem uma grande chance de desaborchar” (GRAY, John. Homens são de Marte, mulheres são de Vênus. São Paulo: Editora Rocco, 1997, p. 24). O grande problema é que convi…

Histórias da vida

A mentalidade dogmática deseja prender a verdade na malha das suas palavras, entendo que ela se equivoca. Acredito que nós aprendemos, falamos e escrevemos interpretando cada ponto da nossa história de vida. Na interpretação passam verdades, mas nunca absolutas, nossa história tem várias facetas.  Temos um quadro da nossa história e ela vai acontecendo com várias interpretações e olhares dentro de nós mesmos. Gosto demais de relembrar a história da minha vida. Lembro-me sempre dos momentos bons e ruins dela. Eu tive momentos de profunda tristeza, mas neles, vi o mover de Deus me ensinando a passar pelos vales dela, com a percepção da graça divina em mim sempre. Vi amigos chegados morrendo, vi amigos conquistando e perdendo. Vi histórias de vidas sendo tocadas por Jesus Cristo de Nazaré. Como é bom poder enxergar o passado com graça e com a noção no íntimo de que Deus esteve presente em cada detalhe.  As histórias serão sempre histórias contadas por nós dentro da alma e do coração. Cada …